Mostrar mensagens com a etiqueta Património. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Património. Mostrar todas as mensagens

domingo, 14 de setembro de 2014

Museu Grão Vasco, fonte inspiradora *



Do motivo inspirador.

VISIBILA é um projeto criativo que resulta da interação estabelecida entre a artista plástica Ema M. e algumas obras do Museu Grão Vasco que, pela sua própria natureza ou por razões exógenas à sua valia, menos visibilidade possuem no discurso expositivo do museu, habitando, por agora, as suas reservas. Mas não são obras indiferenciadas ou atípicas. Tão pouco são obras sem merecimento para serem expostas em permanência. Apenas se não enquadram totalmente no discurso expositivo, de essência museológica, assumido pela instituição ou, por razões ainda mais prosaicas, por não estarem nas devidas condições de apresentação ao público, pelo menos em quantidade suficiente que justifique uma alteração substantiva ao referido discurso.
Mas o elemento diferenciador, e certamente o mais decisivo, dos modelos inspiradores da artista é, sem dúvida, o da sua específica tipologia - o retrato. A artista parte de alguns retratos de personagens mais ou menos conhecidos, existentes no museu, e em particular dos retratos de D. João VI e de D. Carlota Joaquina de Bourbon, ambos de autores desconhecidos, para construir um notável conjunto pictórico que é, ao mesmo tempo, memorial e arte, história e lenda, materialidade e imaterialidade, como se de uma narrativa real e fantasiosa, a um tempo, se tratasse. E trata.

Da obra realizada.

E assim chegamos ao conjunto harmonioso que dá corpo à presente exposição – setenta e sete obras notáveis que, num primeiro relance, nos levaria a considerar como sendo os retratos de todos os reis e rainhas de Portugal, que são. Mas não só. Porque são mais que isso e, sobretudo, são criações diversas da tipologia comummente adotada para as classificar, no nosso sempre tão estranho, quanto impulsivo, afã de tentar meter todas as coisas nas caixas certas que se encontram depositadas no lado mais lógico e racional do nosso pensamento. Mas é compreensível que assim seja, porque faz parte da nossa natureza fazê-lo, na tentativa permanente, e quantas vezes inconsciente, de sobrepor alguma ordem e harmonia ao caos provocado pela infinidade de sensações e perceções que o nosso intelecto vai absorvendo ao longo das horas, dos dias, dos anos de uma vida…
Retratos que não são retratos, já que são rostos propositadamente fantasmais, aqueles que se nos apresentam pela frente e, no entanto, encontramos neles os traços identitários da personagem representada, não suscitando qualquer dúvida sobre a identidade individual de cada rei ou rainha, numa singularidade escrupulosamente demarcada, mas que só possui a plena razão da sua existência no contexto global do coletivo simbolizado. Vale por si, porque é retrato, mas só se explica plenamente, porque é obra de arte integrante de um conjunto criativo e original que ultrapassa decisivamente as fronteiras das mais arcaicas definições concetuais.
Esta irreverente forma de ser uma coisa e, depois, ser ainda mais qualquer coisa que essa coisa que se é, procurando ser múltiplo no potencial discurso interpretativo, faz-nos pensar nos motivos, ou melhor, nos mecanismos intelectuais que estiveram na base da construção deste projeto artístico. A marca impositiva é a da dicotomia, no sentido da lógica, enquanto modelo de abrangência agregadora de duas partes concorrentes para a unidade, mais que no sentido da oposição, que não existe, nessas duplicidades propositadamente construídas, e muito bem, pela artista.
É que, curiosamente, Ema M. trata sempre o simbólico na base das cumplicidades dicotómicas que poderíamos avocar à exaustão, ficando-nos aqui pela mais evidente: são retratos reais, da realeza portuguesa, onde precisamente todas as rainhas se encontram também figuradas - reis e rainhas, masculino e feminino, não em oposição mas em complementaridade natural, o que dá uma consistência inaudita ao conjunto realizado.

Da museologia à museografia.

Do ponto de vista museológico, a particularidade deste projeto, ainda na linha da dicotomia congregadora (e não opositora), reside no facto de o Museu Grão Vasco poder apresentar ao público uma obra independente, original e única, mas feita a partir da feliz inspiração da autora, Ema M., em obras de arte do próprio museu. Algumas delas, aliás, patentes na própria exposição. O Museu assume-se aqui como fazendo parte integrante e indissociável do próprio ato criativo, por intermédio de um prévio estudo e apreciação de Ema M. que, confrontada com as diversas fontes artísticas inspiradoras, se sentiu impelida à materialização dos seus impulsos criativos. Como só os artistas sabem e podem fazer…
Mas ao optar pelos retratos (que já sabemos que o não são apenas), de todos os reis e rainhas de Portugal, e da forma como o fez, a artista introduziu algumas mais-valias museológicas que não podemos deixar de referir aqui: desde logo o valor pedagógico da coleção exposta, ao dar visibilidade a aspetos muito concretos da nossa História, apresentando pequenos detalhes que escapam ao conhecimento atual de muitos visitantes. Referimo-nos, em concreto, à identificação das personagens em causa, em forma criativa e simbólica, certamente, mas ainda assim complementada com dados concretos que ajudam à perceção do todo – os anos de cada reinado; os cognomes dos reis; as respetivas consortes; a sucessão cronológica das dinastias, matizadas em diversas colorações; tudo conferindo uma linearidade natural ao próprio discurso expositivo.
Também por isto, a museografia desta exposição é extremamente simples, tão simples quanto original e apelativa, uma vez que as legendas substituem com vantagem as tabelas informativas e o percurso da visita pode ser feito em ambos os sentidos que, espacialmente, delimitam o campo expositivo. Depende apenas do nosso particular interesse na abordagem cronológica do tema, iniciando a visita pelo Condado Portucalense, nas figuras tutelares de D. Henrique e de D. Teresa de Leão e Castela ou, ao invés, pela Quarta Dinastia, apreciando os retratos de D. Manuel II e de D. Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen.
A escolha é nossa.
O Museu Grão Vasco tem todo o gosto em apresentar ao público esta exposição de Ema M., VISIBILIA, à qual está indissoluvelmente ligado por ter sido a fonte inspiradora de tão impressivo, belo e original trabalho criativo, e por intermédio da qual também pretende dar maior visibilidade às suas coleções.
Agostinho Ribeiro
Diretor do Museu Grão Vasco
14 de setembro de 2014.


* In Catálogo da exposição “Visibilia, de Ema M”, Museu Grão Vasco, Viseu, 2014.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Architektur ist geiselnahme *.


*A Arquitectura faz reféns.



João Figueiredo, Antropólogo e Bolseiro de Investigação da Fundação para a Ciência  e Tecnologia, decidiu, em boa hora, dar um contributo importante para a discussão pública em torno da problemática da obra do Eixo Barroco da cidade de Lamego. Fê-lo num artigo de opinião deveras interessante, e baseado em fundamentos conceptual e historicamente válidos, ainda que discutíveis[1].

Temos, pela primeira vez, alguém que se oferece para discutir esta problemática com base em argumentos providos de seriedade histórica, embora generalistas, constituindo o seu contraditório um exercício que ultrapassa a mera circunstância do gosto efémero que a moda nos confere, para se alcandorar à postura mais elevada de uma dialéctica conceptual, que se não esgota no básico ser “a favor” ou ser “contra” esta obra, por meras razões de alinhamentos político-partidários, como tem acontecido até ao momento por parte da maioria dos que se posicionam a seu favor.
Só por isto felicito o autor do artigo, que penso não conhecer pessoalmente, e agradeço-lhe a sua produção, pela riqueza de conteúdo que traz à discussão pública da questão.

Sem embargo, as minhas discordâncias sobre a tese apresentada são profundas, e baseiam-se numa diferente análise e interpretação dos testemunhos históricos chamados à colação para fundamentar, ou melhor, justificar a opção pela execução da obra, pelo menos a um nível idêntico à razão que reconhece (e muito bem) existir por parte dos que, como eu, não concorda com ela.

Desde logo porque o adágio da “catedral que nunca acaba de ser construída” não traduzia um conceito arquitectónico puro e original, tanto quanto o consigo interpretar. Traduz antes, em modesto entender, uma sublimação espiritual tardia, mais no sentido da ecclesia original do que no fundamento da edificação física da igreja. É a construção da Igreja de Deus que nunca acaba, porque é tarefa inacabável, depois vertida na materialidade das sucessivas necessidades de adaptação funcional dos edifícios, construindo-se assim uma lógica discursiva, simbólica, entre o céu e a terra.
Aliás, se repararmos bem, a grande maioria das catedrais constituem, como também acontece na nossa Sé de Lamego, uma enciclopédia de estilos, precisamente pelo facto da maioria da construção nova surgir sobre, e em complemento à edificação primitiva. Com certeza que houve excepções, mas não é sobre excepções que podemos construir normativos. De facto esta não era a regra, porque a destruição do edificado só ocorria quando o mesmo já se encontrava em tal estado de degradação ou de desadequação às necessidades funcionais, que nada mais restava senão proceder à sua substituição.
Ora, construir reparando o existente e substituindo apenas o que já estava absolutamente inoperacional e obsoleto é coisa diversa, e muito diferente, da destruição do existente e construção nova sobre o destruído, sobretudo se o destruído ainda cumpre integralmente as suas funções...
Precisamente, Antoni Gaudi, um modernista sincrético, ou, como disse Antonio Llena, “um barroco, um romântico, um racionalista e, acima de tudo, um surrealista", não rogou que destruíssem o que ele tinha feito, mas antes que dessem continuidade ao que ele tinha feito, o que é, mais uma vez, substancialmente diverso do postulado defendido por alguns (que não o do autor do artigo, segundo creio) de que a contemporaneidade em arquitectura pode passar pela destruição pura e simples dos testemunhos edificados dos que nos antecederam, em nome da defesa da vida qualificada desses espaços urbanos.

Esta construção teórica, ainda que respeitável, é muito discutível, e leva erradamente à dedução de um suposto antagonismo entre a percepção dos espaços vivos e dos espaços-museu, depreendendo eu que o autor entende os espaços-museu como espaços mortos ou, pelo menos, bem menos vivos que os ditos.
Ora, também este antagonismo não aguenta o crivo de uma análise mais profunda, já que se baseia em determinados preconceitos intelectuais que não têm qualquer sustentabilidade, nem teórica, nem prática.
Em primeiro lugar, a “lógica conservacionista que dita as intervenções em espaços-museu” não é incompatível nem opositora a qualquer “ímpeto reformador” dos lugares da dita memória cívica. As reformas são necessárias e desejáveis, usando-se hoje o termo da requalificação para melhor as caracterizar e identificar. Não há, hoje em dia, nenhuma lógica “conservacionista” que defenda ou postule o imobilismo e a “não-inscrição” como opção. Pelo contrário, é hoje sabido por todos que conservar a memória material ou imaterial de um qualquer colectivo é um acto proactivo, vivo e dinâmico, e jamais um acto de condescendência com a inactividade e a omissão.

Este equívoco baseia-se na noção ultrapassada, incorrecta e despropositada, de que os museus são espaços mortos onde se depositam objectos, sem qualquer outro significado ou função que não seja os de os guardar e, como tal, sem importância para a vida das pessoas... Nada de mais errónea esta percepção, porque os museus nunca foram isso e, sobretudo hoje em dia, são precisamente o contrário disso! Basta estudarmos um pouco mais a história dos museus e a sua evolução, desde os primórdios à actualidade, para percebermos que essa noção não passa de um mito, baseado num conceito romantizado, muito circunscrito temporalmente, mas que fez escola e perdurou no imaginário dos mais desatentos à evolução dos museus no seio da(s) sociedade(s) que serve(m) [2].

Sendo eu um adepto fervoroso do conceito de que os espaços-museu são, por definição, espaços vivos, e não outra coisa qualquer, tenho dificuldade em interpretar e compreender o simbolismo da expressão architektur ist geiselnahme (a arquitectura faz reféns) fora do seu contexto preciso, tanto histórica como espacial, precisamente porque tal expressão decorre de algum radicalismo ideológico, interpretativo de marcas físicas que deveriam ficar (ou não) congeladas no imaginário de um povo marcado e dividido, como foi o povo alemão do século XX.

Entendo, portanto, desadequada a tentativa de estabelecimento de qualquer comparação de algo que não é comparável, nem à luz de uma ténue similitude formal (intervenção em espaços urbanos) que não tem qualquer outro ponto de aproximação pela distância formal e de conteúdo, bem como das circunstâncias históricas, que afastam as duas realidades.

Na verdade, no que respeita a Lamego, não me parece que haja alguém que se tivesse sentido a viver num museu, por usufruir e utilizar quotidianamente o espaço público que agora está a ser destruído e isso, pela simples razão de que o não era, sem quaisquer outras lucubrações intelectuais. Logo, nenhum lamecense se sentia, tanto quanto me pareceu ao longo dos últimos 38 anos em que aqui vivo, como refém fosse do que fosse, e muito menos condenado a viver num museu estático e inamovível.

Finalizaria com esta simples comparação, aproveitando a deixa do autor daquele interessante artigo - se quiséssemos transpor o rogo de Antoni Gaudi para a realidade do centro histórico de Lamego, respondendo positivamente à sua exortação, estaríamos agora a respeitar o existente, mas não a destruí-lo; estaríamos a contribuir para o enriquecimento do nosso centro urbano com melhorias acrescentadas ao edificado, mas não à substituição completa dos elementos fundamentais que o caracterizam e identificam como ex-libris de Lamego.

Enfim, se em Barcelona se fizesse na Basílica da Sagrada Família o mesmo que se está a fazer agora no centro urbano de Lamego, os barceloneses estariam a assistir à derrocada quase total da Basílica para, em sua substituição, se construir uma outra Basílica, ainda que com alguns elementos de memória da “antiga”. Tenho a certeza de que os barceloneses não iriam admitir, pura e simplesmente, tamanho crime de lesa património!

Foi contra isso que os “conservacionistas” lamecenses lutaram... e perderam.

Agostinho Ribeiro.




[1]Ainda sobre o desafio do eixo barroco em Lamego “, in Douro Hoje, nº 1200, Ano XXVI,  pág. 8, 27 de fevereiro de 2013.
[2] According to the ICOM Statutes, adopted during the 21st General Conference in Vienna, Austria, in 2007: A museum is a non-profit, permanent institution in the service of society and its development, open to the public, which acquires, conserves, researches, communicates and exhibits the tangible and intangible heritage of humanity and its environment for the purposes of education, study and enjoyment.
This definition is a reference in the international community.

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Os meus argumentos contra a obra do eixo barroco I

(Publiquei alguns comentários na cronologia do Grupo Lamego, a propósito das obras do Eixo Barroco, no centro urbano da nossa cidade. Como os comentários passam e depois será difícil reencontrá-los no conjunto dos sucessivos "posts" que se vão colocando todos os dias, entendi que seria oportuno mantê-los de fácil acessibilidade e leitura, para quem quiser ler, concordar ou contraditar. Por isso aqui os deixo exactamente como os escrevi, apenas omitindo os nomes dos destinatários e fazendo uma breve nota preambular quando o comentário corresponde a uma resposta a alguém.)



Este comentário, feito na sequência de um alerta para as obras em causa, iniciou um debate deveras interessante sobre o assunto.


Como já devem ter reparado, e como eu sempre disse desde a primeira hora (e a primeira hora é desde que surgiu esta ideia peregrina de destruir o nosso belíssimo centro histórico) as alterações que vão ser introduzidas irão modificar profundamente a fisionomia da nossa inigualável sala de visitas.

Mas parece que, segundo algumas opiniões certamente muito sabedoras do assunto, quem estiver contra esta obra é um Velho do Restelo...! Imagine-se o absurdo!


Esta obra é prioritária? Não, não é. É fundamental para o desenvolvimento de Lamego? Não, não é. Melhora o trânsito no centro da cidade? Não, não melhora. Faz do centro da cidade um espaço urbano mais belo do que o actual? Não, não faz.


Então o que faz? Faz pensar que em Lamego sobra dinheiro para se gastar onde se não deve e não é estritamente necessário, mas não há um tostão sequer para o que mais importa; faz pensar que em Lamego o importante “é fazer”, fazer seja o que for, mesmo que este fazer seja um completo e total absurdo de desperdício de tempo, de dinheiro, de razão ou de lógica integrada num qualquer modelo de desenvolvimento que, para ser sustentado, deveria respeitar a identidade da nossa terra.

Portanto, vai-se gastar dinheiro (muito ou pouco, tanto faz) numa obra que é absolutamente desnecessária, esteticamente penalizadora, patrimonialmente destruidora da imagem de marca e símbolo único e incomparável, porque sim... apenas porque sim... Porque fazer obra é bom, é sinal de progresso, é sinal de modernidade, é sinal de mudança.
Ao que chegamos... Ninguém terá dito a essas pessoas que ter opinião contrária é legítimo e até desejável, num Estado Democrático e de Direito? Não saberão que mudança, por si só, não significa rigorosamente nada, nem é sinal de coisa nenhuma, se a mudança não trouxer mais valias efectivas para todos?

E que mais valias traz esta obra, ao ponto de ser tão necessária a destruição do existente? Traz a mais valia de destruirmos o que os nossos antepassados nos legaram, e que em quase todo o mundo é objecto de precaução, reabilitando sim, mas respeitando o que está feito e não destruindo, pura e simplesmente, o que estava bem. Quase... Porque há algumas excepções e Lamego é uma delas!
Querem fazer obra nova? Pois que a façam que é bem desejável que se faça... Mas não destruindo o que está bem. Façam a variante, que é tão necessária para todos nós, mas não estraguem nem desrespeitem o trabalho dos que nos antecederam e que, ainda por cima, constitui ex-libris da nossa cidade e, como tal, ninguém se pode arvorar ao direito de a destruir como agora vai ser feito.

Mas não façam mais disparates como o do Pavilhão Multiusos, por favor, porque para obra nova como estas já nos bastavam algumas obras velhas que não abonam a favor da nossa urbanidade.
Querem estragar? Estraguem o que é vosso, mas só o que é exclusivamente vosso e que não se reflicta no colectivo que somos, mas não estraguem o que é de todos, para serventia de todos, no respeito pelo edificado lamecense que deu provas de ser já património incorporado e sedimentado no nosso imaginário colectivo, orgulho de todos os lamecenses que sabem e percebem o valor e o significado do termo património.

Agostinho Ribeiro

Os meus argumentos contra a obra do eixo barroco II

(Publiquei alguns comentários na cronologia do Grupo Lamego, a propósito das obras do Eixo Barroco, no centro urbano da nossa cidade. Como os comentários passam e depois será difícil reencontrá-los no conjunto dos sucessivos "posts" que se vão colocando todos os dias, entendi que seria oportuno mantê-los de fácil acessibilidade e leitura, para quem quiser ler, concordar ou contraditar. Por isso aqui os deixo exactamente como os escrevi, apenas omitindo os nomes dos destinatários e fazendo uma breve nota preambular quando o comentário corresponde a uma resposta a alguém.)



Esta foi a minha resposta a um comentário, colocado por um outro cidadão lamecense que argumentou em defesa da obra mas utilizando, em meu entender, argumentos enviesados na sua construção.

Talvez fosse bom existir um pouco mais de seriedade em algumas das considerações aqui feitas, a saber:


- O facto da Câmara não “gastar” os 3 milhões de euros não dá à Câmara o direito de desperdiçar recursos públicos em obras que não são prioritárias, como esta não é. A Câmara de Lamego não tem sequer o dinheiro para assumir a responsabilidade da contrapartida nacional, a não ser pelo aumento do endividamento bancário;


- Talvez fosse melhor aplicar o dinheiro, nos mesmos termos, para realizar a circular externa a Lamego, tão necessária, em vez de estragar o que de bom e bonito esta terra tem. Mas isto é apenas uma opinião...;


- A questão do aumento das árvores é irrelevante porque esse aumento irá dever-se essencialmente à continuidade pelo Largo de Camões e Rua do Regimento de Infantaria. O que é verdadeiramente descaracterizador da zona, e serão um verdadeiro obstáculo à visualização do plano da escadaria de Nossa Senhora dos Remédios, vista que é imagem de marca da nossa cidade;


- Não vão retirar as taças da avenida porque houve logo um coro de protestos a essa hipótese, mas chegaram a equacionar essa possibilidade. E quanto às estátuas ainda não é certo que fiquem, pelo que seria desejável algum esclarecimento sobre esse aspecto;

- Já quanto à destruição do Jardim Visconde Guedes Teixeira, é claro que vai ser totalmente destruído, sendo substituído por um arranjo que não se percebe muito bem o que é, ou o que vai ser mas que, em termos gerais, se configurará numa enorme extensão de assentamento em granito, e pouco mais.

Seria bom perceber que o desenho das duas avenidas são datadas, históricas e foram construídas numa lógica de circulação urbana que integrava harmoniosamente a circulação pedonal e rodoviária. Assim, o tal corredor pedonal contínuo que parece agradar tanto a certas pessoas e que servirá para o lazer de poucos tem, como contrapartida:

- O estreitamento da via rodoviária em todo o eixo vai, obrigatoriamente, dificultar ainda mais o trânsito rodoviário, que não tem alternativa nenhuma de circulação, porque a variante ainda não está feita;

- A extinção da rotunda do Soldado Desconhecido, vulgo Chico do Pinto, não é só uma questão de “hábito” que se resolverá com o tempo – é um estrangulamento sem alternativa e que resultará num aumento de pressão nas vias secundárias, sem necessidade nenhuma. Basta perceber o que será o trânsito de pesados e ligeiros nessas vias alternativas e concluir pela fragilidade da opção;

- Plantar árvores nas faixas laterais dos monumentos é um disparate completo porque precisamente vai tapar a visibilidade dos mesmos, como as árvores plantadas à frente do Teatro irão retirar visibilidade tanto ao Teatro, como à Sé de Lamego, inviabilizando a vista de fundo quando se está a olhar para os Remédios no largo de Camões, junto à estátua de D. Miguel de Portugal. Basta fazer um pequeno esforço de imaginação para perceber o que se vai perder;

- O mobiliário urbano é matéria já secundária, bem como toda a melhoria na Rua do regimento de Infantaria nº 9, onde não há nada a criticar.

Achar portanto, que um benefício de passeio pedonal, meramente circunstancial e limitado, é suficientemente válido para se gastar tanto dinheiro público, com prejuízo nítido para tudo o mais que se possa equacionar, é ser muito redutor.
Mas há um benefício que não foi equacionado – o da melhoria efectiva das infraestruturas básicas (água e saneamento) que de facto é positivo. Mas isso podia ser feito sem estragar o que existe.

Agostinho Ribeiro

Os meus argumentos contra a obra do eixo barroco III

(Publiquei alguns comentários na cronologia do Grupo Lamego, a propósito das obras do Eixo Barroco, no centro urbano da nossa cidade. Como os comentários passam e depois será difícil reencontrá-los no conjunto dos sucessivos "posts" que se vão colocando todos os dias, entendi que seria oportuno mantê-los de fácil acessibilidade e leitura, para quem quiser ler, concordar ou contraditar. Por isso aqui os deixo exactamente como os escrevi, apenas omitindo os nomes dos destinatários e fazendo uma breve nota preambular quando o comentário corresponde a uma resposta a alguém.)



Estes foram os dois comentários colocados a seguir ao comentário de alguém que tinha remetido para o site do projecto Viver Lamego, onde o projecto da obra está sumariamente apresentado. O endereço é <http://www.viverlamego.com/espaco-publico-do-eixo-barroco>

O terceiro comentário, ainda que na sequência dos anteriores, já remete para outras questões de natureza municipal.

1

Esta descrição aqui trazida por x é uma enorme mistificação do que vai acontecer, redigida com o propósito de validar com argumentos baseados em convicções não provadas nem demonstradas, nem testadas, como se pediu e não se fez, precisamente por saberem que estão (estavam) a laborar num profundo erro. 

A história das árvores, por exemplo, que serão plantadas no eixo da via à frente do Teatro Ribeiro Conceição, ao invés de promover a visibilidade dos espaços urbanos vai, precisamente pelo contrário, fechar e destruir tal visibilidade, como é evidente, a não ser que plantem árvores transparentes.

Todo o património edificado, observável do Largo de Camões (frente ao Museu) vai ficar tapado pelas novas árvores que se vão plantar na zona e que servem para explicar porque razão irá haver mais árvores.

Do mesmo modo isso vai acontecer na zona da rotunda, com as árvores que ali serão plantadas e que fará perder a amplitude da visibilidade e fruição do edificado, como acontece agora. Ou será que não se aperceberam disso?



Por favor, pensem com a vossa cabeça e não com as verdadeiras tretas que naquele texto está escrito. 

O passeio pedonal contínuo é um benefício absolutamente irrelevante perante os prejuízos que tal opção vai causar.
O passeio pedonal serve muito pouca gente (e eu até sou um dos privilegiados que irá beneficiar com isso, mas acho que o interesse público deve estar acima do interesse pessoal) e a verdade é que para haver esse passeio, terão que extinguir a rotunda e, por favor, pensem no que vai acontecer sem aquela rotunda a servir de escapatória imediata para o trânsito, sobretudo dos pesados.
É fácil imaginar o que vai ser, é só olhar para as centenas de viaturas que todos os dias pressionam o nosso centro e depois imaginar o que vai acontecer sem a rotunda, tendo todas as viaturas que circular pelas vias alternativas que não estão dimensionadas para suportar o trânsito que até hoje tem a escapatória permitida pela rotunda.
Fizeram-se testes de eficácia rodoviária às alterações produzidas? Sabemos como suportarão as ruas secundárias e residenciais (Fafel, Bernardo Pinto de Aragão, Columela, Justino Pinto de Oliveira e Alfredo de Sousa) ao aumento exponencial de viaturas que, no sentido descendente da Av. 5 de Outubro terão que sair por algum lado? Fez-se algum teste? Algum ensaio? Algum estudo prévio?

Assegurar que vai haver melhorias, mesmo comerciais, no centro urbano depois destas obras, é outra falsidade facilmente desmontável. Com menos estacionamento, muito menos do que o que existe (numa média de perda de 2 lugares para cada 3 actualmente existentes) a que se acrescenta o estreitamento de toda a via e a impossibilidade de paragens mesmo momentâneas ao longo de toda a extensão da via vai levar a um forte impedimento de actividade comercial no dia a dia dos estabelecimentos no lugar, como não pode deixar de ser. É claro que o lazer, sobretudo no período do Verão vai ser melhor, não temos dúvidas, mas isso irá contribuir para uma melhoria significativa da actividade comercial e residencial da zona? Pois eu, estou convencido que não!

2

Ou seja, não gosto do projecto e tenho todo o direito de não gostar. Não encontro mais valias tão evidentes como as que nos querem meter pelos olhos dentro e é facilmente demonstrável a fragilidade das opções. Mas há um aspecto muito mais importante e que é o da destruição patrimonial, porque de destruição patrimonial, datada, histórica, romântica, se trata. Destruir não é requalificar - são duas coisas diferentes.
Claro que tenho paciência e não tenho outro remédio senão aceitar as asneiras feitas pelos actuais responsáveis camarários, porque foi o povo lamecense que os colocou lá, mas é bom não esquecer que o poder político não confere o direito às pessoas de fazerem tudo o que lhes apetece. 

Vejam o que se está a passar com as grandes opções deste executivo, nomeadamente a empresa pública municipal que agora tem que ser extinta e o pavilhão multiusos que ainda não se sabe como vai ficar...

Mas acho bem que defendam o indefensável... Assim sempre terão menos problemas de consciência quando verificarem a enorme asneira que estão a fazer ao destruir a galinha dos ovos de ouro da cidade de Lamego! Obrigado.


3

Este terceiro comentário já foi mais de resposta genérica à capacidade que o senhor Presidente da Câmara tem para argumentar com muita bonomia e ligeireza, em defesa dos projectos. Mas falar bem não significa, tantas vezes, fazer bem...


Será que ainda não percebemos que o Presidente da Câmara tem resposta para tudo? O problema não está nas respostas que ele tem, e que nos dá com muita proficuidade, mas sim nas consequências dos actos que ele vai cometendo, independentemente das respostas tão sábias que ele nos dá. Dou-vos 3 exemplos, sendo 2 que já atrás referi:

1 - A empresa pública municipal Lamego Convida era (e é) no entender dele um verdadeiro sucesso político, social e desportivo e cultural, a fazer fé no que dizia e ainda diz sobre ela. No entanto vai ter que ser extinta porque não cumpre sequer os mínimos requisitos exigíveis a este tipo de empresas. Imaginem que as receitas próprias da mesma não chegavam a custear metade das despesas que tinha e tem com o pessoal e, por isso mesmo, será extinta por força da lei;

2 - O Pavilhão Multiusos iria ser uma infraestrutura que, a partir dos finais de 2008, inícios de 2009, traria enormes mais valias à cidade, concelho e região. Em inícios de 2013 o Pavilhão ainda não está terminado, tem problemas gravíssimos estruturais (certamente que esses problemas não são de sua responsabilidade) mas a fazer fé nas iniciativas que já se fizeram lá, vai custar os olhos da cara estando fechado e muito mais custará de cada vez que se abrir para um qualquer evento. Ou seja, é um verdadeiro flop, analisado seja por que prisma for;

3 - Era absolutamente indispensável e necessário criarem 3 centros escolares no concelho, segundo a proposta do senhor Presidente da Câmara, mesmo sabendo-se que não iria haver alunos em numero suficiente para os utilizar devidamente. Mas os argumentos do senhor Presidente, sábios, como se vê, levaram à construção dos 3 centros. Hoje está demonstrado que dois chegavam e sobravam para as necessidades e até para a organização equilibrada e harmoniosa de todo o processo educativo para o Concelho de Lamego. Agora um dos centros vai ser ou já é uma espécie de centro paroquial...

Isto tudo para vos dizer que as respostas e argumentos apresentados pelo senhor Presidente da Câmara são sempre muito bons e excelentes, mas depois vem a realidade e desmente-os a todos, sem excepção. E não vale a pena dizer que não é assim, porque a realidade está à nossa frente, à vista de toda a gente e só não vê quem não quer, ou não pode, ver.
Mas sempre ouvi dizer que o pior cego é, precisamente, aquele que não quer ver!
Obrigado.


Agostinho Ribeiro

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Eu cumpri o meu dever de lamecense!




Perante a proposta de deliberação do senhor Presidente da Câmara Municipal de Lamego, propondo que seja ratificado o seu despacho, datado de 17 de novembro de 2012, no qual adjudicou à firma Francisco Pereira Marinho e Irmãos, S.A., a obra de “Requalificação do Espaço Público do Eixo Barroco”, pelo custo de 2.562.308,15 € (dois milhões, quinhentos e sessenta e dois mil, trezentos e oito euros e quinze cêntimos), acrescido de IVA à taxa em vigor, eu cumpri o meu dever de lamecense, votando contra!

A proposta foi, no entanto, aprovada por maioria, com os votos a favor do senhor Presidente da Câmara Municipal e dos senhores Vereadores da Coligação PSD-CDS, e o meu voto contra, com a seguinte declaração de voto:
“Voto contra esta proposta de ratificação, em primeiro lugar e desde logo porque o senhor Presidente da Câmara não honrou a sua palavra quando se comprometeu a realizar um teste rodoviário na zona de intervenção deste projecto, anulando temporariamente a circulação na Rotunda do Soldado Desconhecido, para verificação dos efeitos que iria provocar a sua hipotética suspensão definitiva. Dado que a obra já foi adjudicada, tal ensaio deixa de ter qualquer pertinência ou sentido de oportunidade.
Em segundo lugar esta decisão não nos refere nem esclarece se tal obra possui já, ou não, a aprovação formal da candidatura ao QREN, porque as informações obtidas sobre esta matéria apontam para o facto de tal candidatura aos fundos comunitários ainda não estar desbloqueada.
Finalmente, e mais importante que tudo o resto, voto contra por considerar que a presente obra é um verdadeiro “crime” de lesa património contra a cidade de Lamego e contra todos os lamecenses que se revêem nesta imagem de marca de altíssima qualidade urbana, a exigir apenas melhorias no que toca ao seu mobiliário constitutivo e rede de infra-estruturas de saneamento básico, mas jamais alterando profundamente a fisionomia geral do belíssimo desenho e configuração existentes, como agora se pretende fazer. Mantêm-se,  portanto, todas as dúvidas sobre a bondade das alterações propostas, nos termos já enunciados anteriormente, ou seja, não melhorando, do ponto de vista estético, a beleza existente, sedimentada e historicamente datada, e que é a “marca” primordial de grande impacto turístico nacional e internacional do nosso lindíssimo centro histórico de Lamego; não resolve, antes prejudica, a circulação rodoviária no coração da cidade, por estreitamento despropositado da via e anulação da escapatória rodoviária que a Rotunda do Soldado Desconhecido propiciava, sem que ainda exista uma alternativa válida à circulação no centro histórico (a tão necessária quanto permanentemente adiada circular externa, que tarda em ser concluída); e destrói, finalmente, uma componente importantíssima da história urbanística da nossa cidade, retirando-lhe identidade e singularidade, transformando o identitário centro histórico de Lamego num espaço público banal, por igual ou parecido a tantos outros que vemos pulularem por tantas outras cidades portuguesas. Trocar a singularidade pela vulgaridade não me parece ser a melhor opção para Lamego, e muito menos nos tempos difíceis que correm actualmente.
A dupla avenida do centro histórico de Lamego é a imagem de marca patrimonial e urbanística da nossa cidade, e devia ser respeitada até como preito de homenagem aos nossos antecessores e figuras ilustres da nossa terra, que tanto engrandeceram e melhoraram a nossa vetusta cidade de Lamego, sem com isso a endividarem abstrusamente, como acontece hoje em dia.
Daqui a razão do meu voto contra.”

Para memória futura, porque quero deixar aos vindouros a certeza de que houve, pelo menos, um lamecense na Câmara Municipal de Lamego que foi contra o "crime" de lesa património cometido no centro histórico da nossa cidade.

Agostinho Ribeiro

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

A magia dos números!




Não haja dúvida que há números que são mesmo mágicos... Sobretudo nas manipulações dos modelos teóricos que sabem adaptar, sempre, as necessidades reais à virtualidade das boas (ou às vezes menos boas) intenções...
Quem não gosta muito deste tipo de exercícios intelectuais, quando passados ao "papel", é mesmo o Tribunal de Contas que, a este propósito, mas noutros azimutes e âmbitos inspectivos, considera ser a problemática criação de uma enganosa “ilusão de suficiência”, uma forma errada de “estimular a assunção de compromissos, aumentando assim as responsabilidades” de uma qualquer entidade, “sem a correspondente entrada de recursos financeiros”...
Já li isto, algures, num relatório do Tribunal de Contas...

E vem isto a propósito das minhas incursões sobre a proposta de Orçamento de Estado para 2013, com particular detalhe sobre as propostas da entidade tutelar que agora é responsável pela gestão do Museu de Lamego - a Direcção Regional de Cultura do Norte (doravante DRCN).

Desde logo convém notar (e estranhar) o facto de no site desta Direcção Regional não constarem os Relatórios de Actividades e de Gestão referentes aos anos de 2010 e 2011, como acontece na maioria das entidades públicas. Não quero crer que tal se deva a uma qualquer tentativa de omitir informação fundamental sobre as contas desta entidade, mas certamente devido a um qualquer lapso momentâneo que, estou certo, rapidamente será resolvido.

Muito mais estranho é constatar que esta DRCN prevê encaixar perto de 3 milhões de euros de receitas próprias, (excluindo na presente análise tudo quanto se refira a fundos europeus) o que me pareceu extraordinário para uma entidade que ia receber sete museus e um palácio que, à excepção "do" palácio - o Paço dos Duques, em Guimarães - são deficitários em termos financeiros correntes (que não em termos de serviço cultural público, em que são muitíssimo superavitários).

Fui analisar com mais detalhe estes números e pude constatar esta coisa espantosa – a DRCN prevê encaixar mais 162 % de verbas, em receitas próprias correntes, que as previsões que possui para o actual ano de 2012, que se estimam em cerca de 1 milhão e cem mil euros.
Certamente que pensam que o ano de 2013 será um ano de extraordinário e forte crescimento para a economia portuguesa, a permitir devaneios estimativos desta dimensão...
Ou então (é importante não descartar tal hipótese), estaremos perante projectos já concretos e definidos de externalização, como se propõe no documento preliminar do Orçamento de Estado, na brevíssima parte em que se refere à área da Cultura/Património, ainda que em lado algum devidamente descriminado, o que não pode deixar de nos merecer a maior das apreensões...!

Ora, sabendo nós que as receitas das entidades museológicas que agora se integram nesta direcção regional não conseguirão muito mais que 600 a 700 mil euros (com alguma condescendência, creio eu), e sendo certo que o próximo ano não será melhor que o actual, pareceu-me ser manifestamente exagerado tanto optimismo...

Por isso mesmo, não satisfeito com esta constatação, e à falta de informação útil que nos desse luz sobre tal projecção, fui tentar perceber em que é que se baseia a estimativa das receitas próprias para este ano de 2012, fixadas na ordem do milhão e cem mil euros, (a dar-nos conta de que, afinal, o ano que corre até pode vir a não “correr” assim tão mal para a DRCN, caso esta estimativa se cumpra...). Estranhei, uma vez mais, a ausência de qualquer justificação ou fundamentação para tais valores e optei então por ir a uma fonte original, ou seja, a uma conta de gerência que nos desse, com toda a fidedignidade, uma ideia concreta, real e concisa das receitas próprias desta entidade. Para isso, só tinha uma solução - consultar as Contas do Estado referentes a 2011, que já se encontram fechadas.

É claro que fiquei profundamente admirado, e desiludido, com os valores que ali encontrei plasmados. Então não é que as receitas próprias referentes a 2011 se quedam por uns míseros 230 mil euros? Portanto, vamos assistir este ano a um crescimento de receita própria da DRCN na ordem dos 382 % e, para o próximo ano, na ordem dos 162 %. A relação percentual de 2011 para 2013 representa um aumento de receita própria de 1.165 %, uma verdadeira epifania, quando comparado a esse ano menor de 2011...! Absolutamente esmagador...

Como em nenhum lado nos é explicada a razão de ser deste extraordinário aumento, absoluto e percentual, (a mais das vezes inscrito nas rubricas “outros” e “outras”) vamos simplesmente esperar e desejar que estes valores se não insiram naquilo que os inspectores e Juízes do Tribunal de Contas referem ser “criação de ilusão de suficiência”, tão duramente criticada por eles...

Ainda se poderia contra argumentar que esta é a norma praticada por todos, nomeadamente por todas as direcções regionais de cultura e seriam, (a par de algumas autarquias que tão bem conhecemos), uma espécie de “tique maniento” das pessoas da cultura (e de outros quadrantes gestionários), mas não, não é... Felizmente não é!
Fui verificar os valores das restantes entidades regionais de cultura e constatei que estas direcções podem ter muitos defeitos, mas este não têm seguramente, porque os valores ali constantes correspondem, grosso modo, ao que eu considero ser um exercício saudável e responsável de uma estimativa orçamental adequada às exigências da gestão da "coisa pública".
A única que “foge” um pouco mais aos padrões normais é a da região centro, na ordem dos 78 % do ano de 2013 em relação a 2011, mas mesmo assim a anos luz dos “mágicos” 1.165 % da DRCN.

No fim de tudo isto, lá terá que vir o senhor Ministro das Finanças lamuriar-se publicamente de que, afinal, a despesa foi muito maior que o previsto... Pudera... Com tanta "ilusão de suficiência"...

Os números têm destas coisas... Por vezes são mesmo mágicos e podem aumentar exponencialmente até onde a nossa imaginação os quiser levar... Basta querermos... e ele há quem queira muito!

Agostinho Ribeiro

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Fundação Museu do Douro versus Secretaria de Estado da Cultura, ou a inversão do ónus da prova.




As declarações provenientes da Secretaria de Estado da Cultura, a fazer fé nas notícias que hoje vieram a público, e através das quais ficamos todos a saber que podemos merecer o apoio do senhor Secretário de Estado da Cultura, se ficar demonstrado que este é o cenário mais indicado com vista à redução da despesa pública, só nos pode deixar perplexos...
Eles, afinal, não sabem... Eles não sabem bem o que andam a fazer...
Eles produziram um ato legislativo com vista à extinção de uma (entre outras) Fundação, sem saberem se com tal decisão iriam aumentar ou diminuir a despesa pública! Deve ser do género “extingue-se e logo se vê no que vai dar”, sem cuidarem dos nefastos e devastadores efeitos que provocaram numa instituição e numa região, nem tão pouco se preocuparem com as aflições e preocupações que produziram nas pessoas que trabalham nesta entidade cultural de relevantíssima importância para o desenvolvimento da Região do Douro.
Não é apenas inconsciência. É um ato profundamente lesivo, moral e material, de um coletivo que se revê numa das poucas entidades transversais que o Douro possui, o Museu da Região do Douro, instituído por unanimidade na Assembleia da República, fato até então inédito na história da museologia portuguesa, e que de um momento para o outro vê extinto o seu modelo de gestão fundacional, sem qualquer critério ou fundamento válido que se conhecesse, exatamente por ser inexistente, como agora nos demonstram tais afirmações.

Mas devia ter sido ao contrário... Na fundamentação para a extinção, deveria ter sido o próprio Estado a enunciar a quantidade e a qualidade obtidas, ali na redução da despesa e aqui no aumento da prestação gestionária.

O ónus da prova tem de ser invertido – deve caber ao Governo demonstrar e justificar a sua acção, nomeadamente explicando porque razão corta 30% a tantas outras Fundações, mas mantém para elas dotações anuais na ordem global das várias dezenas (para não dizer centena) de milhões de euros, e à Fundação Museu do Douro pede uma demonstração de que os 500 mil euros que tem legalmente de transferir constitui a melhor opção de gestão desta entidade.
Foi tudo obra do “acaso”, e no Douro extingue-se, porque sim, e nas restantes zonas de Portugal não se extingue, porque não? Isto é, simplesmente, inaceitável!

Esta é mais uma prova da iniquidade, ligeireza e descuido com que as instituições e as pessoas estão a ser tratadas por este Governo.
Com particular prejuízo para a nossa região do Douro, diga-se de passagem...!

Agostinho Ribeiro.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Vale a pena tocar assim o rabecão...?






A história é simples e conta-se em duas penadas, lembrando-me de imediato do velho ditado popular português que reza assim: “Quem te manda a ti, sapateiro, tocar o rabecão?”, em sábio aforismo sobre os que pretendem ser o que não são ou passar pelo que não podem ou (ainda) não sabem ser...

Vem isto a propósito de um texto que agora se encontra disponível no site da Direcção Regional de Cultura do Norte, sobre o Museu de Lamego, quase integralmente baseado nas competentes reflexões do nosso saudoso Dr. Francisco J. Laranjo, mas em lado algum referenciado como fonte inspiradora do que ali se encontra vertido, o que não deixa de ser uma indelicadeza, a todos os títulos lamentável...
A omissão das fontes primordiais de quase tudo o que ali está escrito, permite-nos a ideia de que se pretende fazer parecer que aquilo saiu da mente de alguém da Direcção Regional de Cultura do Norte, mas a verdade é que mais não é que o resultado da investigação cuidada do Dr. Francisco Laranjo, ainda que ali se encontre redigido por outras palavras... com a mesma semântica.
Um mínimo de cortesia académica impunha essa explicitação, e se não se podem colocar as referências bibliográficas no fim do artigo, ou em caixa separada, nada impede que se não fizessem tais referências no próprio corpo do texto publicado!

A inadequada conduta no uso indevido das ideias dos outros parece que faz escola nesta Direcção Regional de Cultura, porque os textos anteriores que lá se encontravam eram da minha autoria, mas não tinham qualquer referência a esse facto, nem me solicitaram autorização para tal, como mandam as regras da boa educação e da civilidade, para além das questões relacionadas com os direitos autorais e o respeito profissional que a todos devemos considerar.

Perante a minha reclamação formal, que não mereceu então uma resposta oportuna e atempada (em violação do Código do Procedimento Administrativo) substituíram-se os textos em causa (claro, não é conveniente que o nome de Agostinho Ribeiro apareça em lado algum), resultando na publicação de dois novos textos, certamente elaborados em “excesso de velocidade”, assimilando à pressa, e com pouco cuidado reflexivo, as informações lidas das obras de Francisco J. Laranjo.
Para além de algumas irreverências literárias (o “espólio” do Museu ter sido constituído inicialmente pelo “espólio” já existente), e outros considerandos de estranha concordância gramatical, releva o facto muito negativo de conter imprecisões técnicas, bem como de equívocos históricos, que em nada beneficiam a imagem de rigor do nosso Museu de Lamego.

Pode parecer, aos olhos dos mais desatentos, que são questões insignificantes, mas a verdade é que nos normativos dos inventários museológicos não existe o termo “pintura sobre tábua” (tábua, tanto pode ser de pedra como de madeira), mas sim “óleo sobre madeira”, que é uma precisão da matéria sobre o suporte, admitindo-se também o uso do termo “pintura sobre madeira” ou, para sermos ainda mais precisos, “pintura a óleo sobre madeira”, aqui já na perspectiva da categoria da obra de arte (pintura), com a matéria utilizada (óleo), sobre o suporte em que a mesma é produzida (madeira).
Bastava uma leitura atenta ao Roteiro do Museu de Lamego...
Quando muito, poderia colocar-se a referência, em linguagem mais acessível, aos “painéis” de Vasco Fernandes, designação que se compreenderia melhor pelo “facilitismo” da linguagem utilizada, mas não a designação “pintura sobre tábua” que, para além de não ser usada em termos técnicos, por imprecisa e errónea que é, transmite uma impressão geral de menos valia constitutiva das obras em apreço.
Do mesmo modo, referir que o desenho dos quatro panos que narram a história de Édipo é da autoria de Bernard van Orley, informação certamente relevante, e omitir ao mesmo tempo que a mais emblemática e importante de todas as tapeçarias, A Luta entre os Vícios e as Virtudes, (inadequadamente designada, no meu entender, por “O Julgamento do Paraíso”) foi tecida a partir de um debuxo de Jean van Roome, outro dos mais prestigiados e conhecidos pintores da fábrica bruxelense (sendo esta tapeçaria a que, de entre todas, se destaca pela sua relevância artística e valor patrimonial), é o mesmo que publicitar “o” importante e omitir “o mais” importante, o que não me parece ser uma grande ideia, nem resultar de uma reflexão consistente e aprofundada sobre o valor do nosso património museológico lamecense...!

Mas onde o desconhecimento das coisas mais impressiona, no sentido literal do termo, e que traduz bem ao que pode levar a ânsia de substituir o que existe pelo que se quer que passe a existir, está na afirmação desastrada de considerar que o “Hospital Novo” de Lamego era o edifício onde está instalado o Teatro Ribeiro Conceição. Certamente que essa afirmação resulta da leitura apressada do que o Dr. Francisco Laranjo refere na sua excelente obra “Lamego Antiga”, deduzindo, mal, que o Hospital Novo a que ele se referia era o do Rossio lamecense... Mas não, não é. Esse era o “Velho” Hospital... O “Novo” Hospital a que se referia foi construído no “cimo de Alvoraçães”, em 1892, como o próprio Dr. Laranjo detalhadamente refere. Outro, portanto, que não o velho...

Enfim... Seria bom que a Direcção Regional de Cultura do Norte se apressasse a corrigir os lapsos agora redigidos e, da próxima vez, a terem um pouco mais de cuidado com o que se escreve, porque nem todos os lamecenses andam desatentos e indiferentes ao que se passa por cá, pela nossa terra, e nem todos são assim tão distraídos que não percebam as incongruências aqui e ali produzidas, em desfavor da verdade e dos méritos patrimoniais e históricos de Lamego...

Agostinho Ribeiro

Nota - Verifiquei já que alteraram o referido texto, substituindo o "novo" hospital pelo "antigo". Estamos sempre a tempo de corrigir os erros cometidos... embora mudar alguma coisa para que a maior parte fique na mesma nunca foi, nem será, a solução mais adequada, seja para o que for.
Lamego, 29 de Setembro de 2012.

Agostinho Ribeiro

Nota 2 - A coisa vai devagarinho, mas vai... O "espólio" já não foi complementado com o "espólio", mas agora já é com "diversos elementos", seja lá o que isso for...
Lamego, 1 de Outubro de 2012.

Agostinho Ribeiro