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quinta-feira, 7 de março de 2013

O Museu de Lamego, (mal) visto pelo Guia Turístico do Douro.




Uma circunstância especial fez-me recordar a péssima sensação que tive ao ler o Guia Turístico do Douro, quando me apercebi da forma nada adequada com que o Museu de Lamego tinha sido tratado naquele roteiro. Devido aos meus diversos afazeres e responsabilidades, fui adiando uma tomada de posição pública sobre o assunto, e confesso que até já estava quase esquecido... quase...
Mas essa circunstância deu-me agora o ímpeto que então me faltou, e como nunca gostei de deixar de dizer o que penso e sinto, enviei esta missiva aos responsáveis pela elaboração deste Roteiro.





Exmos Senhores


Tenho andado a adiar sistematicamente uma imperiosa necessidade que sinto de apresentar a Vossas Excelências os protestos da minha maior indignação pela forma absolutamente redutora e omissa com que trataram o Museu de Lamego no Roteiro do Douro, de Vossa responsabilidade.


Não colocar no texto “Museologia” uma única referência ao Museu que detém o património artístico mais valioso e representativo da região duriense, o único Museu Estatal da Região do Douro, com um acervo de excelência que o coloca ao nível dos restantes museus portugueses mais valiosos para a construção da  identidade cultural portuguesa, é atitude que eu jamais esperaria de quem tem a obrigação estrita de saber o que está a escrever, quando aborda a temática dos museus e da museologia no território duriense.

Perante tamanha omissão, não fazendo valer com o destaque necessário algumas das colecções que são referência nacional e internacional, sem expor a datação de algumas das obras mais significativas do seu espólio, como é o caso das tapeçarias flamengas do século XVI, por acaso “apenas” a maior e melhor colecção de panos de armar renascentista, existente em colecções nacionais; ou não referir que as primeiras obras identificadas de Grão Vasco, o maior pintor do pré-renascimento português se encontram, precisamente, no Museu de Lamego, é coisa que não lembra a ninguém, pelo menos a quem tenha um mínimo de conhecimento sobre o património artístico duriense.

Museu quase centenário, o ÚNICO na região que alberga colecções que estão classificados como Tesouros Nacionais, ainda por cima em maior número que a esmagadora maioria dos museus do Estado Português; objecto de interesse e investigação permanentes, tanto por nacionais como por estrangeiros, sobretudo europeus; sem dúvida o ÚNICO Museu clássico de arte antiga sediado no território duriense; inquestionavelmente um dos museus de arte mais significativos de Portugal... e não merece sequer uma referência no texto do vosso Roteiro, estando apenas contemplado com um texto ilustrativo de uma fotografia da fachada, absolutamente redutor e secundário, se relacionado com a importância que o mesmo possui no panorama museológico local, regional, nacional e internacional.

Para que conste, deixo lavrado este meu profundo desagrado, pela forma nada competente nem profissional com que elaboraram este Roteiro, no que à museologia e ao Museu de Lamego diz respeito.

Com os meus cumprimentos

Agostinho Ribeiro 

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Teatro Ribeiro Conceição (2).



Quando escrevi o meu artigo da semana passada, sobre o teatro, ainda não tinha conhecimento do resultado do concurso aberto para o preenchimento das vagas de director e de assistente de direcção para aquela entidade pública municipal.
Começo por referir que, sobre esse concurso, tive o cuidado de manifestar a minha opinião antes que estivessem em causa pessoas, como agora passou a estar, porque era mais que previsível que viesse a acontecer o que agora está a acontecer.
De facto, há alguns meses atrás e como alguns se lembrarão muito bem, expressei a minha maior preocupação pelo teor da abertura dos concursos em causa, sob a responsabilidade directa da administração da empresa municipal LamegoConvida, então presidida pelo Eng. Francisco Lopes, que não pode, em circunstância alguma, deixar de ser responsabilizado por mais este atentado ao bom nome de Lamego.
Considerei, nessa altura, que o mesmo concurso não possuía quaisquer exigências ao nível da formação académica e profissional dos candidatos, não remetia para qualquer grelha que definisse minimamente o perfil desejado, não esclarecia as funções e competências que os candidatos seleccionados iriam ter de assumir, para concluir, com inteira propriedade, que aquele anúncio não era sério!
Tive oportunidade de referir ainda que nem uma linha vinha naquele anúncio que nos esclarecesse sobre a composição do júri, sobre os métodos de selecção que iriam ser seguidos, nem do programa de provas de conhecimento ou do sistema de classificação final que iria ser utilizado.
Perguntava mesmo como seriam aplicados os métodos, e que critérios objectivos de avaliação iriam ser utilizados na selecção dos candidatos… Provas de conhecimentos? Avaliação curricular? Entrevista profissional de selecção?
E terminava o conjunto das minhas interrogações perguntando-me sobre se o próprio júri (que não se sabia quem era) integrava alguém da área em causa e/ou teria conhecimentos adequados que o permitissem avaliar, com seriedade, isenção, rigor e competência, os currículos dos candidatos…
Pois bem… A realidade que agora vem ao conhecimento público consegue ser bem pior que as minhas piores expectativas sobre o assunto, já que da leitura que fiz ao relatório preliminar de avaliação dos candidatos torna-se evidente a completa ausência de rigor e objectividade processuais, sem que se tenha acautelado devidamente um único item dos que então enunciei.
 Começa, desde logo, pela total e completa incompetência técnica e científica do júri, nas áreas que se propuseram avaliar, já que não são conhecidos quaisquer saberes, teóricos ou práticos, neste sector específico da gestão cultural, por parte do Dr. Paulo Correia e do Arq. Joaquim Miguéis. Ainda por cima um júri composto por apenas dois elementos é coisa que nunca se viu em lado nenhum do mundo civilizado, a não ser aqui em Lamego, o que nos leva de imediato a levantar as mais fundadas dúvidas sobre princípios fundamentais de isenção e imparcialidade que devem presidir a concursos deste género…
É que não é por uma questão de mero capricho ou de mania fundamentalista que os júris são compostos, no mínimo, por três elementos, em qualquer organismo ou entidade séria que se preze de o ser. E nem é necessário explicar a bondade deste modelo, tão evidente ela se nos apresenta…!
Depois, a total inexistência de uma grelha que nos desse uma ideia dos métodos e processos avaliativos reforçam a nossa convicção de estarmos perante um processo que, se não é totalmente ilícito, não andará longe disso, ficando arredada qualquer hipótese de poder ser considerado sério ou eticamente defensável.
E afirmo isto sem colocar em crise as competências, habilitações ou méritos de quaisquer concorrentes, até porque nem sequer conheço os contemplados, nem tive acesso aos currículos dos diversos candidatos, mas manda a verdade que se diga que este processo vem inquinado desde o início, conforme oportunamente denunciei publicamente neste jornal.
Exige-se, no mínimo, a anulação deste indescritível concurso, para posterior reabertura segundo os requisitos normais que costumam ser aduzidos a processos desta natureza.
Para o bom-nome de Lamego e dos lamecenses, que não estão habituados a ser tratados desta maneira por parte de quem tem as maiores responsabilidades na gestão das coisas públicas!

Agostinho Ribeiro

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Teatro Ribeiro Conceição.



Agora que estamos quase a assistir à inauguração do novo Teatro Ribeiro Conceição, e antes que alguém falseie os factos e cante loas a quem as não merece na totalidade, tomo eu a iniciativa de deixar bem expresso neste jornal alguns dados sobre o desenrolar deste moroso processo, aqui entendido na sua globalidade, ou seja, desde a sua concepção inicial até ao resultado final, que não terminará com a conclusão das obras físicas do edifício, como julgo que é evidente para todos nós.
Como já estou cansado de assistir a situações de autêntico “roubo” de propriedade intelectual (e da falta de reconhecimento de méritos de co-autorias) de alguns projectos culturais estruturantes para Lamego e para a região, tomo hoje a liberdade de relembrar que este projecto do Teatro Ribeiro Conceição não é de agora e foi efectivamente iniciado há cerca de 20 anos atrás, conforme adiante descreverei.
A primeira vez que alguém se manifestou publicamente (que eu tenha conhecimento) sobre este tema da inevitabilidade de aquisição e recuperação do Teatro, aconteceu há precisamente 22 anos, quando eu próprio escrevi um artigo sobre o assunto, no semanário “Voz de Lamego”, corria então o ano de 1985. Nessa altura, discorri sobre a premente necessidade de se classificar o edifício, de se adquirir o mesmo pela autarquia e de, posteriormente, se procederem às indispensáveis obras para a sua requalificação funcional.
Com as eleições autárquicas de 1985, fui então eleito vereador, tendo ficado com a responsabilidade do Pelouro da Cultura. Envidei então todos os meus esforços para se iniciar o processo de aquisição do Teatro, tendo sido o primeiro responsável público a iniciar, efectivamente, um processo negocial que haveria de dar os seus frutos, devendo referir também que o meu antecessor no Pelouro, Prof. César Chiquelho, tentou estabelecer, sem sucesso, os contactos indispensáveis ao despoletar deste processo.
E lembro-me muito bem que, não havendo quaisquer verbas municipais disponíveis para o efeito, consegui junto da Secretaria de Estado da Cultura, então liderada pela Dr.ª Teresa Patrício Gouveia, o primeiro financiamento indispensável ao bom sucesso desta intenção, por intermédio de uma associação cultural então criada para o efeito.
No decorrer desse mandato (1985/1989) conseguiu-se adquirir uma parte substancial do teatro, em processo negocial que iria ser continuado (e muito bem) pelos Presidentes da Câmara que se seguiram, Rui Valadares e José António Santos. Este último, não só deu seguimento às negociações das parcelas que faltavam adquirir, como avançou com o concurso e consequente elaboração do projecto de requalificação, tendo-o ainda candidatado, com todo o sucesso, aos fundos comunitários.
Aliás, foi a anterior Câmara Municipal que adjudicou esta obra à firma Edifer Construções, S.A., conforme se pode verificar pela leitura da acta do executivo camarário de 5 de Setembro de 2005, tendo sido assinado o respectivo contrato em 28 de Setembro do mesmo ano. Só mesmo um inexplicável, inadmissível e nada ético “adiamento” do processo, no interior dos serviços municipais, fez com que a consignação da obra se efectivasse já ao tempo do novo executivo.
O actual executivo adquiriu a última parcela que ainda se encontrava na posse de um dos primitivos proprietários, e deu o normal seguimento ao processo, o que só pode merecer a nossa satisfação, embora pense que esta última aquisição poderia ter sido bem mais vantajosa para as finanças municipais.
Como se pode verificar, foram muitos os anos, e ainda mais os protagonistas que trabalharam afincadamente ao longo deste tempo todo para que Lamego obtivesse esta importante benfeitoria cultural.
Esta Câmara Municipal foi, neste processo, a que menos teve de se esforçar para o efeito, tendo apenas dado seguimento ao que vinha de trás. O projecto estava elaborado, o financiamento comunitário garantido, os procedimentos administrativos cumpridos. Em todo o caso não deixam de estar também de parabéns, pelo facto de terem sabido dar continuidade a um projecto estruturante para a cidade e concelho de Lamego.
Tivessem sabido fazer o mesmo em relação a outros bons projectos que vinham de trás, do foro artístico e cultural, e seríamos certamente bem menos críticos do que somos actualmente.
Portanto, já sabe, meu caro leitor… Se alguém lhe disser que o projecto de requalificação do Teatro Ribeiro Conceição se deve exclusivamente a este executivo, esse alguém estará a faltar à verdade, vá-se lá saber porque razões…!

Agostinho Ribeiro

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

Inventariação do Património Móvel Religioso da Diocese de Lamego



A sessão de encerramento do projecto de Inventariação do Património Religioso da Diocese de Lamego (Arciprestados de Lamego e Tarouca) irá decorrer já no próximo dia 29 do corrente, no auditório do Museu de Lamego, a que se seguirá a inauguração da exposição “A Palavra e o Espírito – Exposição de Arte e História” na Casa do Poço, o novo espaço museológico da nossa cidade, que muito me apraz aqui registar e divulgar.
Tendo sido convidado pelo coordenador deste projecto, Dr. Nuno Resende, para prefaciar o catálogo referente a Lamego, não poderia deixar de tecer algumas considerações sobre a importância que o mesmo tem na salvaguarda e valorização do nosso património religioso, uma vez que sempre me pareceu ser fundamental o estudo, e consequente classificação e inventariação, daquilo que é suposto termos a obrigação civilizacional de proteger.
Outra coisa não faria sentido… Ninguém defende o que não conhece, nem protege o que lhe é indiferente e, portanto, um dos passos fundamentais em todo o processo de salvaguarda e valorização do nosso património cultural passa, obrigatoriamente, pelo seu estudo e inventariação, para seu uso posterior. Este uso, seja ele considerado em termos académicos e científicos ou de exclusiva fruição deleitosa, pode mesmo constituir uma forma expedita de prevenir eventuais perdas, acautelando assim a sua melhor protecção física e uma maior capacidade de resposta perante situações adversas, como seguramente acontece quando existe informação detalhada e ficha de identificação das peças artísticas em causa.
Um outro aspecto que deve ser realçado, neste processo mais global de acções concertadas com vista à protecção dos bens artísticos nacionais, é o das excelentes relações, pessoais e institucionais, que sempre existiram entre o Museu e a Diocese de Lamego. De facto, poucos exemplos podem ser apontados, a nível nacional, deste tipo tão bom de relacionamento estreito e profícuo entre duas entidades, como as que agora se enunciam, num contexto de saudável parceria institucional, e que tem vindo a dar resultados de grande valia cultural para a nossa cidade e região, como se pode confirmar pela quantidade e qualidade das realizações conjuntas que estas duas entidades já desenvolveram ao longo das últimas décadas.
Foi, aliás, esta excelente postura de estreita colaboração entre ambas que levou à presença do Museu de Lamego, na qualidade de conferencista institucional, no Congresso Internacional Europae Thesauri, que decorreu o ano passado em Portugal por iniciativa e organização da Diocese de Beja, conforme tivemos então oportunidade de informar publicamente. Na altura, proferimos uma comunicação a um conjunto de quadros e responsáveis (religiosos e laicos) académicos, técnicos e científicos, a nível europeu, sobre as boas práticas por nós seguidas (Diocese e Museu), numa perspectiva histórica, não deixando de projectar para a actualidade este desiderato estratégico, em nome da salvaguarda e valorização do nosso património artístico religioso, intervenção essa que foi muito bem recebida por todos os participantes daquele Congresso.
Desde praticamente a fundação do Museu de Lamego que estas relações são cordiais, e foram sendo construídas e enriquecidas com base na instituição da mútua e recíproca confiança entre os diferentes e directos responsáveis de cada entidade representada, sendo minha profunda convicção que só assim se pode construir algo de positivo e duradoiro, não só neste sector do saber e do conhecimento, como em todas as restantes áreas da actividade humana, como não pode deixar de ser.
Um bom exemplo nacional, que deve ser acarinhado por todos, e ao qual temos a obrigação de dar a devida continuidade, já que seria muito empobrecedor para todos nós deixar cair por terra uma experiência tão rica e frutuosa como esta, ainda que no caso concreto do inventário diocesano esta colaboração se tenha manifestado num apoio logístico de limitada dimensão institucional.
Em todo o caso, é-nos particularmente gratificante validar a colaboração competente da Dr.ª Alexandra Braga, técnica superiora do Museu de Lamego e que, em conjunto com os restantes investigadores, deu um inestimável contributo para a excelente qualidade do catálogo que suporta este projecto de inventariação do nosso património religioso, em boa hora assumido pela Diocese de Lamego.
Bem hajam todos pelo importante trabalho já realizado!

Agostinho Ribeiro

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Museus e Património Universal



Todos os anos o ICOM – Conselho Internacional de Museus – propõe para o dia 18 de Maio, o Dia Internacional dos Museus, um tema integrador das problemáticas que preocupam os museólogos e, de uma maneira geral, todos os que se inquietam com as coisas do património, à esfera planetária.
Este ano o tema escolhido foi, precisamente, o dos Museus e Património Universal, propondo-nos, com tal temática, que abordemos as questões relacionadas com “o papel dos museus na preservação, estudo, documentação, valorização e comunicação de um património comum da Humanidade num mundo culturalmente tão diverso”.[1]
Num território como o nosso, classificado como Património da Humanidade pela UNESCO, nos idos de 2001, esta temática não podia ser mais actual e pertinente, já que meia dúzia de anos depois da sua classificação, se impõe uma reflexão séria sobre os efeitos, positivos ou não, que uma qualificação desta natureza possa ter operado no território duriense.
Como sabemos, são vários os museus existentes no Douro e é uma (e una) a sua natureza constitutiva que, na diversidade, formatou a identidade cultural que lhe deu corpo e lhe garantiu o sentido unitário de “paisagem cultural evolutiva e viva”. Fazia-nos bem reler o documento de candidatura e, a partir desta leitura, reflectir profundamente sobre as formas, meios e instrumentos utilizados, e/ou postos à disposição pelos poderes públicos, para assim procedermos a uma avaliação consistente do que soubemos fazer na defesa e valorização deste património universal, de que tanto nos orgulhamos, mas que tão pouco temos sabido tratar.
Na esfera museológica, propriamente dita, projectos como os do Museu da Região do Douro e do Museu do Côa, aquele em articulação com outros núcleos existentes ou em construção no território duriense, e este na sua relação umbilical com o Parque Arqueológico do Vale do Côa, constituem a matriz referencial em torno dos quais se começa a tecer uma rede museológica que há-de dar consistência e textura a este relacionamento vital entre os museus e o território onde estão inseridos.
Isto, claro, sem esquecer as realidades museológicas e monumentais clássicas e pré-existentes na região, como são os casos do Museu de Lamego e do Palácio de Mateus (para referir apenas os dois mais emblemáticos) e tantos outros monumentos civis, militares e religiosos, cuja integração, beneficiação e valorização se impõe em permanência, com vista à sua adequada fruição colectiva.
Já no que concerne ao plano global de apoio e incentivo ao desenvolvimento sustentado da região, o principal enfoque deverá ser dado, em modesto entender, à Estrutura de Missão para a Região Demarcada do Douro, criada por Resolução do Conselho de Ministros nº 116/2006, de 20 de Setembro, e cujo responsável é, como todos sabemos, o Eng. Ricardo Magalhães.
Neste particular, somos de opinião que começa a fazer-se sentir a premente necessidade de reunir o conselho consultivo desta estrutura para, conforme se expressa no respectivo documento legal que a criou, se pronunciar “sobre as acções e as prioridades de investimento a desenvolver na Região”.
Todo o resto, e o resto é tudo o que falta fazer, é um caminho que terá de ser percorrido… caminhando! E há-de ser longo e ainda penoso este percurso de afirmação da nossa região, na certeza de sabermos que existem muitas forças hostis, e até de resistências inexplicáveis e inadvertidamente inocentes, tantas vezes tomando, simplesmente, a nuvem por Juno.
Tanto o Museu de Lamego como o Museu da Região do Douro organizaram um conjunto de eventos, sobretudo vocacionados para os públicos escolares, mas aberto a todos os interessados, para comemorarmos mais este Dia Internacional dos Museus, um dia em que gostaríamos de testemunhar que a fruição do nosso património cultural faz parte da agenda dos durienses.
No dia 18 de Maio, não deixe de visitar um museu, ou uma exposição, perto de si…

Agostinho Ribeiro



[1] http://www.ipmuseus.pt/

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

A Montante do Tempo



Há exposições que não se devem perder. A exposição que se encontra patente ao público na Casa do Poço, inaugurada no passado dia 7 do corrente, e que terminará a 22 deste mês, é uma delas.
Tentarei alinhavar algumas ideias centrais que me levam a considerar a importância desta exposição, no contexto das realizações similares que em Lamego costumam ser organizadas.
Em primeiro lugar pela qualidade intrínseca das obras de arte que se encontram em exposição, e das suas proveniências, já que estamos a tratar de um tipo muito próprio e especial de obras de arte sacra, que requerem alguma reflexão conceptual para a sua adequada interpretação.
Provenientes das designadas “aldeias vinhateiras” da região do Douro, por força do projecto de apoio ao seu desenvolvimento, em que se integram Barcos, Favaios, Provezende, Trevões e Salzedas, estas peças simbolizam e representam “um brevíssimo percurso pela expressão artística ligada à devoção popular e à acção da Igreja no vale duriense” (*), no dizer esclarecido dos autores do opúsculo relativo à exposição.
Com eles partilhamos também as interrogações sobre o que poderá haver de comum entre estas cinco aldeias, suficientemente forte para que na diferença consigamos notar a harmonia da similitude, e para que na diversidade possamos encontrar o deslumbramento do que as pode unir… Será “o Douro que, de tão próximo quase as alcança? A vinha e o seu cultivo secular – engrenagem de uma máquina que se pôs em marcha para apresentar-se ao mundo? Ou apenas a condição histórica da solidão e da lonjura, do isolamento só quebrado, ciclicamente, por conjunturas mais favoráveis? Tudo isto, com certeza, as une…”. Da força telúrica que lhes prodigaliza o vinhedo, e do vinho que esforçadamente se lhe solta do fruto, não ficamos indiferentes ao percurso místico que haveria de produzir tantas e tão belas obras de arte, que mais não são, afinal, que o resultado sublimado dessa religiosidade com que o duriense se impregna no quotidiano do seu dia a dia, em três séculos de arte ali esplendidamente retratada.
Não se vêem todas, porque a exposição é uma curta amostragem do muito que há para ver, “apenas uma brevíssima abordagem da infinidade de pontes e elos entre a arte religiosa e a vivência no Douro”, mas o que se pode apreciar é significativo e relevante desse património artístico e religioso, espalhado por todo o lado desta terra duriense, e só por si elemento caracterizador, integrante e indissociável desta comunidade a que pertencemos.

Depois, porque esta exposição se integra nas comemorações dos 250 Anos da Região Demarcada do Douro, e é nesta felicidade de se verificar que em Lamego decorrem, actualmente e em simultâneo, três grandes exposições relacionadas com estas emblemáticas comemorações, que podemos inscrever a letras que o tempo não apague, a nobreza da verdade de se ser Douro.
Estas exposições, cujos elos de ligação nos permitem outras tantas leituras sobre a realidade duriense, pelos olhos de quem cá vive ou viveu, mas também por quem, vindo de fora, nos sabe olhar como só um artista o sabe fazer nas suas múltiplas e geniais interpretações, são a prova da vitalidade secular da nossa gente, que ainda se não perdeu nem perderá.
Aqui se encontram e aqui se cruzam, aportando a Lamego como quem, depois de um percurso inspirador e criativo, que do mundo vem a esta terra e desta terra se eleva ao céu, retorna então ao seio original, ao ventre materno, ao princípio de tudo…
Foi em Lamego que o Douro começou! Algures entre o céu e a terra…

Finalmente, porque esta exposição inaugura uma nova era na história da museologia em Lamego. Patente ao público nas instalações do futuro Museu e Arquivo da Diocese de Lamego, esta exposição marca o início de um ciclo renovado das nossas preocupações em inventariar, estudar e classificar, proteger, expor e divulgar o vasto e rico património artístico e documental da Diocese de Lamego.
Há muito que se reclamava por esta tão necessária infra-estrutura cultural e a certeza da sua concretização só pode ser motivo de regozijo e felicidade para todos nós.
Da mesma forma que o nosso Bispo, D. Jacinto Botelho, soube elucidadamente elogiar e felicitar o grande paladino desta causa, Monsenhor Eduardo Russo, Vigário Geral da Diocese de Lamego, na sua intervenção inaugural do evento, também nós nos associamos a tão justas felicitações, pelo trabalho empenhado e a competência iluminada com que este ilustre clérigo nos brinda continuamente, desde o início deste projecto museológico, até à sua já bem sucedida concretização.

Agostinho Ribeiro

(*) Os aspados em itálico são citações da Introdução da edição “A Montante do Tempo, Exposição de Arte Sacra | Aldeias Vinhateiras”, com textos da autoria de Alexandra Braga e Nuno Resende.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

Aí está a Bienal da Prata!



Para gáudio de quem escreve estas linhas podemos hoje constatar que, afinal, a segunda edição da Bienal da Prata cá se está a realizar, nas instalações do Museu de Lamego.
Como sempre pensei que este projecto é estruturante para o desenvolvimento de Lamego e da Região do Douro, e porque não mudo de opinião com a facilidade do oportunismo, apraz-me registar a realização do evento e congratular-me com a adesão incondicional de quem tinha acabado de dizer “cobras e lagartos” da Bienal, e dos seus mais directos responsáveis.
Que lhes sirva de lição… Será que começam a aprender alguma coisa, nomeadamente que a precipitação das considerações abusivas e insultuosas sobre os outros também lhes pode cair em cima, num retorno mil vezes mais prejudicial?
Para quem disse o piorio da Bienal da Prata e me perseguiu injuriosamente durante os últimos tempos a este propósito, não deixa de ser reconfortante verificar tamanha alteração de comportamento e de posição. Para bem de Lamego, devo dizer! Para bem de Lamego e da respeitabilidade que estas acções, e seus protagonistas, devem ter e demonstrar, não somente quando nos dá jeito, mas sempre e em todas as circunstâncias que rodeiam e caracterizam tais eventos.
Mas é preciso ter cuidado com aquilo que se diz e escreve, com aquilo com que se pactua ou não, com a verdade ou a falsidade das afirmações que produzimos, porque não vale a pena tentar enganar as pessoas e fazer passar ideias e mensagens que não correspondem à verdade, por muito que isso seja mediaticamente relevante para a tentativa de agradar a alguns sectores da sociedade lamecense.
Por exemplo, vir afirmar que o senhor Presidente da Câmara de Lamego propôs a execução de uma coroa de prata para oferecer a Nossa Senhora dos Remédios, quando essa ideia e proposta já existia muito antes dele ser Presidente da Câmara, no seio da direcção da Associação Bienal da Prata, precisamente para ser concretizada no âmbito desta segunda edição, é usurpar a ideia de outros e não abona para a credibilidade dos seus autores.
E que não se pretenda também fazer crer que o projecto do Museu da Prata Civil resulta deste novo bom entendimento entre a Associação e a Câmara Municipal de Lamego, porque também a ideia deste projecto é muito anterior a este entendimento e apenas esperava pelas condições adequadas para o pôr em andamento.
Que aqui fique registado para memória futura, para que ninguém alcance sem direito aquilo que rectamente a outros pertence!
Tudo isto sem prejuízo, evidentemente, das nossas genuínas felicitações a todos os intervenientes no processo de construção de tais projectos, sejam eles os de recentíssima adesão ou os de maior profundidade histórica na sua embrionária formatação.
E já agora… Vi na inauguração o senhor director do Jornal do Douro e os seus correligionários, que me injuriaram sistematicamente a propósito da Bienal, mas não os ouvi perguntar, seja a quem for, pelas contas da mesma… A que se deverá tamanha cambalhota de posicionamento e tamanho silêncio de hoje depois de toda a gritaria de ontem? Pelos vistos estes senhores gostam, de vez em quando, de se fazer passar por gente séria.
Quem navega exclusivamente ao sabor dos ventos do oportunismo cedo se transforma em náufrago da sua errática condução!

Agostinho Ribeiro

P.S. – Houve quem não tivesse gostado de ler o meu artigo sobre o Congresso do PS. Respeito as opiniões dos outros como aprecio que respeitem as minhas.
Mas invectivarem-me por dizer aquilo que, ironia das ironias, poucos dias depois o Senhor Presidente da República haveria de dizer (à sua maneira) numa entrevista nacional, só pode ser interpretado como uma brincadeira de extremo mau gosto e de falta de respeito por quem tem a coragem de expor publicamente as suas ideias.
E que se saiba, o Senhor Presidente da República não é socialista…

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

I Congresso Internacional Europae Thesauri



O Museu de Lamego foi convidado a apresentar uma comunicação no Congresso Internacional Europae Thesauri, que decorreu em Beja, nos passados dias 22 a 25 do corrente mês.
Organizado pela Associação Internacional dos Tesouros e Museus de Igrejas, este Congresso contou com o apoio da Diocese de Beja e da Câmara Municipal de Beja, e teve como objectivos primordiais divulgar o que de mais importante se tem feito pela salvaguarda do património religioso europeu.
Subordinado ao tema “Tesouros da Igreja, Tesouros da Europa”, este encontro pretendeu constituir-se como “um fórum pan-europeu destinado a promover uma reflexão interdisciplinar sobre os desafios que se colocam hoje em dia aos Tesouros e Museus da Igreja, tendo em vista a sua integração nas realidades culturais, mas também sócio-económicas, políticas e religiosas, de um continente em rápida transformação”.[1]
É gratificante constatar que, entre mais de 15 países europeus, representados neste Congresso, e num conjunto de mais de 50 comunicações apresentadas, o nosso Museu de Lamego tenha sido expressamente convidado para fazer uma comunicação sobre a temática das relações entre este Museu do Estado e a Diocese de Lamego, por se saber da exemplaridade existente na colaboração histórica que estas duas entidades sempre souberam manter.
Tivemos oportunidade, portanto, de discorrer sobre um passado repleto de bons exemplos, no que respeita ao estudo, inventariação, salvaguarda e divulgação do riquíssimo património existente na nossa Diocese, perante uma assembleia composta pelos mais excelentes quadros europeus (técnicos e científicos) nesta área específica do saber e da actividade patrimonial e museológica.
A partir de uma primeira resenha histórica, em que caracterizamos o Museu de Lamego, ele próprio repositório de um património religioso de excepção, ao longo do seu percurso existencial, partimos para a fase actual do estado de relações mantidas entre a Diocese e o Museu, nomeadamente no que diz respeito à criação do novo museu diocesano. Aqui, fizemos questão de realçar o contributo prestado pelo Museu, ao elaborar o Programa Museológico do Museu da Casa do Poço, e a assunção das responsabilidades de gestão que permitiram, inclusivamente, maior celeridade e eficácia no processo de candidatura deste projecto aos fundos comunitários.
Numa análise retrospectiva, que não deixámos de fazer, focalizamos ainda a nossa atenção nas diversas exposições temáticas, realizadas em parceria com a Diocese de Lamego, desde 1950, com a exposição de Arte Sacra então realizada, até à actualidade, aqui traduzida na continuada colaboração que prestamos ao nível da inventariação do património diocesano e da já referida participação no futuro modelo de gestão do Museu-Arquivo da Casa do Poço.
Aliás, outra atitude não faria sentido, sabendo nós que duas instituições desta natureza apenas podem beneficiar com uma política concertada e harmonizada, de forma a rentabilizar os recursos disponíveis, complementar as suas actividades e responsabilidades técnicas e funcionais, assumindo ambas o seu papel insubstituível na salvaguarda e divulgação do nosso património e na projecção de Lamego (cidade, concelho e diocese) no espaço nacional e internacional, por força dos tesouros religiosos, patrimoniais e artísticos, que orgulhosamente possuimos.
Sob a irrepreensível coordenação do Secretário-Geral deste Congresso, Arq. José António Falcão, director do Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja, este Congresso atingiu a totalidade dos objectivos que se propunha atingir e é sempre gratificante perceber que o fruto do nosso trabalho é reconhecido muito para além das nossas fronteiras.

Agostinho Ribeiro



[1] In http://www.europaethesauri.eu/apresentacao.html