quinta-feira, 22 de março de 2007

Verdade e mentira / Mentiras e verdades



Parece que há gente que se não dá muito bem com as verdades…
Acham que mentir contra os adversários, insultando-os e difamando-os, é um direito inalienável de cidadania que lhes assiste, diria mesmo um direito inquestionável, talvez até um dos maiores bens da democracia, mas ouvir as verdades ditas e escritas contra eles próprios, sobretudo porque tais verdades são duras e dolorosas, já constitui um atentado à dignidade e honorabilidade dos próprios, inadmissível de atender no quadro legal actualmente vigente em Portugal.
Disse bem, e vou repetir, para que não subsistam dúvidas nesta minha afirmação – há quem pense que insultar os outros, por via da mentira, é um direito que lhes assiste, mas serem desmascarados, com verdade, fundamentos, argumentação e provas explanadas nessas opiniões que se produzem, já é um atentado à pessoa humana, um acto difamatório, a exigir reparação junto das instâncias competentes.
Fico deveras abismado com o desplante destas pessoas, o seu descaramento inaudito, que os faz pensar que as regras da democracia, nomeadamente as que suportam a liberdade de expressão, apenas podem ser exercitadas por quem lhes é afecto, e não por quem deles discorda, pessoal, profissional, intelectual e politicamente falando... São os “tiques” ditatoriais de quem ainda não percebeu, e provavelmente nunca perceberá, que em democracia não há censura, que apenas as mentiras e as insinuações infundamentadas são difamatórias, e que nunca a verdade poderá ser amordaçada, nem tão-pouco subjugada à mentira.
Como todos já devem ter reparado, eu tento sempre fundamentar o teor das minhas afirmações e explicar devidamente porque razão considero os actos públicos de certas pessoas como não merecedores da minha concordância, alguns mesmo merecendo a minha mais viva reprovação. E tenho a verticalidade de o fazer abertamente, dizendo o que sei e penso em “voz” bem alta, para que não restem dúvidas sobre os destinatários das minhas considerações, nem se permitam erradas interpretações sobre as matérias que merecem a minha atenção.
Há quem não goste? Pois há… Paciência. Que não ajam da forma que agem, que não façam as asneiras que fazem, que não ponham eles em causa a honorabilidade e a respeitabilidade dos outros, para que o mesmo não lhes aconteça também. Sou dos que defendem o princípio que devemos respeitar para sermos respeitados, considerar para sermos considerados, compreender para sermos compreendidos.
Evidentemente que o inverso também é válido. Que ninguém me peça para respeitar quem me não respeita, considerar quem me não considera, compreender quem me não compreende…!
E, sobretudo, que ninguém pense que pode calar as vozes dissonantes com qualquer espécie ou tipo de ameaças, sejam elas quais forem… Esse tempo das ameaças e das atemorizações, seja por que via for, já lá vai e não voltará mais. Perder a noção da realidade das coisas, pensando provavelmente que por tanto afirmar a mentira ela se transformará em verdade, é coisa que já não passa pela cabeça de ninguém, a não ser por quem se julga superior aos outros, e que pensa que os outros são néscios ou mal-formados, ao ponto de não conseguirem perceber as verdadeiras intenções dos actos públicos que se praticam.
Para quem assim pensa, se é que alguém assim pensa, apenas posso dizer que se enganou redondamente. Enganou-se no destinatário e enganou-se na obtenção dos proveitos que julgaria obter com tais atitudes, porque se a opinião pode ter várias faces perante a verdade, a verdade não tem duas faces perante as opiniões que sobre ela podem recair.

Portanto, não deixarei de dizer as verdades, por muito que os outros as tentem transformar em “mentiras”, nem deixarei de desmascarar as mentiras por muito que os mesmos se esforcem em transformá-las em “verdades”.

Agostinho Ribeiro

quinta-feira, 15 de março de 2007

A nossa identidade cultural (2)



Tenho ouvido algumas críticas, que hoje pretendo rebater, a propósito da nossa identidade cultural, na base do postulado de que os defensores da conservação e preservação do passado são adversários do desenvolvimento e do progresso.
Bem sei que o não dizem expressamente, mas não se inibem de referir chavões desta natureza, transformando os mais sensatos defensores do património edificado em obtusos inimigos da “modernidade” e do bem-estar colectivo.
Ora, eu tentei demonstrar, precisamente, o contrário, no meu anterior artigo que se referia a esta temática, em defesa de uma tese que é mais segura na promoção do desenvolvimento sustentado de uma cidade e região como é, por exemplo, a nossa.
Não tenhamos ilusões – o futuro de Lamego passa pelo turismo de base cultural, assente no Douro Património da Humanidade, sem esquecer a componente agrícola, em especial a vitivinicultura duriense, mas onde cabe, subsidiariamente, a iniciativa empresarial e industrial de excelência, tanto quanto possível ligada a esse desígnio global.
Significa isto que devemos abandonar outras iniciativas, por mais díspares que elas nos possam parecer, à luz deste desiderato? Não, claro que não. Mas devemos saber enquadrar todas elas neste processo geral de formatação do futuro para o nosso concelho. É necessário definir um rumo, ter visão estratégica e saber captar a adesão das forças vivas, culturais e empresariais da nossa região, com vista à obtenção do suporte e apoio necessários ao cumprimento de tão difíceis propósitos.
E depois, reafirmar o que mil vezes já foi dito – o verdadeiro progresso e desenvolvimento de uma terra passa, obrigatoriamente, pela integração do passado, e não pela sua destruição. Por todas as razões que se possam imaginar e que podemos chamar à colação, uma vez que a nossa primeira e genuína riqueza, aquela que verdadeiramente nos diferencia e enaltece, é a do nosso riquíssimo património material e imaterial, constituindo verdadeira estultice não lhe reconhecer o verdadeiro valor que lhe é intrínseco, até mesmo como factor positivo e indispensável à promoção do desenvolvimento.
Por isso, quando me dizem que os defensores do património edificado são, por norma, demasiado “conservadores” e adversários da causa do desenvolvimento e do progresso, abate sobre mim a frustração de constatar a terrível ignorância que paira sobre o espírito de alguns, apostados que estão em tentarem demonstrar o indemonstrável – que o afã de construir e de fazer “obra” a todo o custo, e à custa do que mais importa preservar, é a opção certa da modernidade e da contemporaneidade.
Mas não é. Nem nunca será!

Um dia acordaremos deste falso sonho cor-de-rosa, e daremos conta da burla a que fomos sujeitos, quando verificarmos que, por termos ficado completamente iguais aos outros (cidade, concelho e região), deixamos de ser o que éramos e deixamos de ser objecto de interesse pela particularidade e diferença da nossa cultura e do nosso património. E então talvez nos apercebamos que as mais valias e benfeitorias que se pretendiam para o nosso bem-estar, eram bem possíveis de assegurar sem sermos obrigados a recorrer à destruição da nossa “galinha dos ovos de ouro”.
Espero bem que nessa altura não seja tarde demais…

Agostinho Ribeiro

quinta-feira, 1 de março de 2007

Aumento das taxas e preços de serviços municipais.



O actual poder autárquico quer, à viva força, aumentar as taxas e preços dos serviços prestados pelo abastecimento de água, saneamento e recolha de lixos.
Alega, em defesa desta propositura, que já há muitos anos se não tem mexido nas referidas taxas e preços, estando as mesmas desactualizadas, e que os preços praticados actualmente não são suficientes para custear os encargos decorrentes da prestação de tais serviços.
Sob a batuta do senhor Presidente da Câmara, somos uma vez mais confrontados com a iminência de um pesado encargo acrescido, que sobre todos nós recairá, como se já não bastasse termos sido suficientemente castigados com o aumento do Imposto Municipal sobre Imóveis, vulgo IMI, para o qual nos devemos preparar, uma vez que no próximo mês de Abril começaremos a sofrer as consequências das decisões destes senhores da coligação PSD – CDS/PP, actualmente a regerem os destinos do nosso concelho.
Acontece que os argumentos apresentados não colhem, pela irrelevância de uns e falsidade de outros, faltando em todo este processo um diagnóstico sério e imparcial que nos prove, de facto, a necessidade de nos aumentarem, para valores absurdos, o preço da água que consumimos. E tais propostas devem ser apresentadas em regulamento próprio como, aliás, a lei prevê e obriga, mas que estes senhores não respeitam nem cumprem, vá-se lá saber porquê… É que nem sequer consideram a recente Lei n.º 53-E/2006, de 29 de Dezembro, que regula o regime geral das taxas das autarquias locais, em vigor desde o início do ano.
Desleixo? Incompetência? Ignorância? Mediocridade? Ou algo mais que nos escapa…? Seja o que for e seja como for, começa a fazer-se sentir a premente necessidade de uma inspecção do IGAT, Inspecção-Geral da Administração do Território, à Câmara Municipal de Lamego, para se apurar devidamente sobre o escrupuloso cumprimento, ou não, das disposições legais existentes que regem as matérias de interesse público municipal.
Mesmo que se não tivessem alterado as taxas e preços há mais de dez anos, como poderão explicar devidamente porque razão os aumentos que agora nos propõem se cifram, em média, em cerca de 67%, (e não em cerca de 40%, como mentirosamente pretendem transmitir aos lamecenses) ambos muito longe, mas mesmo muito longe, dos 27,8% que constitui o somatório acumulado da inflação ocorrida desde 1998 a 2006?
Em todo o caso, basta consultar as actas das reuniões do executivo camarário de 18 de Fevereiro de 2002 e de 8 de Março de 2004, disponíveis no “site” da Câmara de Lamego, para se verificar que, se de facto não houve aumentos suaves e graduais dos tarifários em causa, isso deveu-se às posições inflexíveis dos então representantes do PSD e do CDS/PP, e não por omissão ou indiferença do poder autárquico anterior, conforme dolosamente agora se pretende fazer crer.
O brutal aumento é, ainda por cima, de uma injustiça e de uma imoralidade que bradam aos céus, já que as simulações por nós ensaiadas demonstram que quanto mais se consome por metro cúbico de água, menor é a percentagem de aumento aplicada. Assim, por exemplo, um consumidor típico que gaste 6 m3 de água por mês, verá a sua factura aumentada em 81,56%, e um consumo de 11 m3, que pensamos corresponder à média geral dos consumos domésticos, será onerado em mais 102,21%, em flagrante contraste ao consumo de 20 m3 de água, que verá a sua factura ser aumentada em 65,45%, ou um consumidor de 50 m3, cuja factura não ultrapassará um aumento percentual de 62,36%.
Se os aumentos, em geral, já são por si só completamente desajustados e fortemente penalizadores para quem cá vive, esta penalização maior aos que consomem menos e menor aos que consomem mais, é absolutamente imoral!

Ou seja, estamos perante uma proposta ilegal pelo não cumprimento das formalidades expressas na lei, e imoral pela excessiva carga de aumento que nos vai onerar duramente, e nem sequer nos sabem explicar, com a clareza e a objectividade que as funções públicas exigem, o destino das novas receitas arrecadadas.
Um pouco mais de humildade democrática e sensibilidade para os problemas das famílias lamecenses não lhes ficaria nada mal, e tenho a certeza que a esmagadora maioria dos sociais-democratas e democratas cristãos se não revêem neste grupo autárquico, que apenas parece apostado em nos prejudicar, produzindo decisões erróneas que afastarão ainda mais as gentes de Lamego, ao invés de se criarem condições para a captação e fixação de pessoas na nossa terra.

Agostinho Ribeiro

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2007

“O bajulador”



O bajulador é aquele tipo de pessoa que nunca olha a meios para atingir os seus insondáveis fins.
Especialista na exploração da vaidade humana, não se poupa a lisonjas excessivas para assim obter as benesses pessoais que, de outra forma, nunca conseguiria obter.
Todos nós conhecemos a espécie. Ela pulula em todos os sectores da actividade humana e não deve haver uma única pessoa neste mundo que não conheça, pelo menos, um triste exemplar deste calibre.
Desde que lhe interesse, ou seja, desde que uma determinada pessoa se encontre em situação de o poder alcandorar (normalmente de forma indevida e imerecida) a um patamar ou situação de maior visibilidade ou poder, bajouja servilmente o seu destinatário, na expectativa de obter a tão almejada benesse, e trabalha arduamente na lamechice ridícula do exagero e do excesso, sempre com o fito do emolumento injusto, do reconhecimento impróprio ou do favor despropositado.
Porque se fosse justo, próprio ou propositado, não precisava de recorrer à baboseira fácil, e as pessoas saberiam distinguir e reconhecer os méritos próprios de cada um.
O bajulador insinua-se no seio dos mais desprevenidos e desatentos, faz-se passar por amigo do peito, cria o ambiente adequado para fazer crer que sempre foi, é e será, fiel a quem lhe interessa no momento.
Os mais cuidadosos e ajuizados cedo se apercebem do logro que caracteriza este burlão, e logo se afastam de tão nefastos exemplares da natureza humana, e por isto é que verificamos que os bajuladores apenas têm palco e assistência, repetida e continuadamente, no seio dos vaidosos. A jactância destes não lhes permite perceber que apenas estão a ser alvo de encómios exagerados e falsos, e acarinham com a soberba desmedida que só a bazófia consegue produzir, este género de pessoas, convencidos que estão da justeza dos elogios repetidamente recebidos.
Para esta gente, emissores e receptores, aduladores e gabarolas, o mundo parece resumir-se ao umbigo de cada um, e tudo o que possa pôr em causa esta virtualidade egocêntrica, como se o mundo inteiro girasse, apenas e exclusivamente, em torno deles próprios, é ridicularizado e desprezado.
Mas o bajulador é, por natureza, traidor. Traidor aos princípios e valores que supostamente elogia nos efémeros destinatários; traidor às causas que, aparentemente, abraça, apenas por saber que os receptores são sensíveis a tais causas; traidor aos próprios destinatários que lisonjearam, logo que estes deixem de ser importantes ou necessários à obtenção do benefício procurado. É vê-lo a elogiar hoje e a desprezar amanhã; a atacar desmesuradamente agora e a gabar ridiculamente depois; a jurar fidelidade canina num momento e a atraiçoar o “melhor amigo” no momento seguinte.
Por esta razão, a mais das vezes perde a noção das realidades, mergulha no mundo da irrealidade que construiu e um dia dará conta que está sozinho na sabujice servil e na futilidade vã que construiu e que o caracteriza e identifica. Pior que tudo, para ele próprio, é que olhará então à sua volta e não encontrará nenhuma mão verdadeiramente amiga na disposição de o ajudar.
É esta a triste sina do bajulador, que não se sabe circunscrever à sua própria dimensão, e projecta na vaidade dos outros as suas próprias ânsias e desejos de protagonismo fácil, sem qualquer base ou mérito que o possa justificar.

Agostinho Ribeiro

As “invejas” e os “interesses políticos” da oposição concelhia…



Quando num artigo da revista Focus, há algum tempo atrás, fomos confrontados com declarações infelizes do Sr. Eng. Francisco Lopes, a propósito de “denúncias” provenientes da oposição democrática, tais declarações levaram-me, na Assembleia Municipal seguinte (de 18 de Dezembro de 2006), a pedir esclarecimentos fundados que nos permitissem avaliar a veracidade de tais afirmações.
Como sou dos que pensam que os assuntos não devem ficar pelas meias tintas, tomo hoje a liberdade de transcrever parte da comunicação por mim proferida nessa Assembleia (*), a este propósito, nos termos que seguem:

“Por outro lado, tivemos oportunidade de ler, na revista Focus, um artigo intitulado “Uma casa bem portuguesa…” a propósito da avaliação patrimonial da casa do senhor Eng. Francisco Lopes, actual Presidente da Câmara Municipal de Lamego. Para além das considerações sobre o valor patrimonial da vivenda em causa, e seus reflexos no cumprimento, ou não, das devidas obrigações fiscais dali decorrentes, que nos deixaram verdadeiramente incrédulos, pelos artifícios das declarações produzidas, somos confrontados com afirmações do visado, em que diz que as “denúncias partem de pessoas da oposição no concelho”, referindo-se ainda às “invejas” e “interesses políticos” dessas mesmas pessoas.
Denúncias? Mas a que denúncias se refere o senhor Presidente, a propósito de uma matéria que é pública, com elementos que estão ao alcance de todos e que está à vista de toda a gente? Apenas entendemos estas afirmações no caso de existir algo mais, em termos de alguma cumplicidade existente anteriormente, que não decorra directamente do que é perceptível a todos os cidadãos e, nesse caso, queremos saber se alguém da oposição terá porventura participado em acto lesivo contra o senhor Eng. Francisco Lopes, nomeadamente por interferência, directa ou indirecta, na venda, compra ou, de qualquer forma ou por qualquer meio ilegítimo, terá influenciado nas transacções de algum dos apartamentos que diz ter vendido, para adquirir a referida vivenda e, em caso afirmativo, se tal interferência foi no sentido declarado de o prejudicar.
Do mesmo modo, gostaríamos de saber se alguém da oposição democrática interferiu deliberadamente na aquisição do terreno, na escolha do arquitecto, na construção da vivenda ou na sugestão do valor patrimonial declarado, de forma a prejudicar ou influenciar negativamente o discernimento do senhor Eng. Francisco Lopes, levando-o ao ponto de afirmar o que afirmou no artigo da revista Focus.
Também aqui o Partido Socialista tudo irá fazer para que todos os aspectos relacionados com estas matérias sejam devidamente esclarecidos junto da opinião pública, e das entidades competentes, para assim podermos concluir sobre as interferências irregulares, “invejosas” e de mero “interesse político”, eventualmente protagonizadas por alguém da oposição democrática ao actual Presidente da Câmara Municipal de Lamego.”

E pronto, cá ficamos à espera de se saber se há ou não interferências ilegítimas ou ilegais de alguém da oposição democrática, cumprindo nós o que tínhamos afirmado, de que tudo iremos fazer para que estes aspectos sejam bem esclarecidos junto da opinião pública, exortando daqui todas as entidades competentes para que nos ajudem a averiguar sobre a natureza inadequada de tais interferências…

Agostinho Ribeiro

(*) Só agora divulgo o teor da comunicação, porque a respectiva acta apenas foi aprovada na última sessão da Assembleia Municipal de Lamego, que ocorreu no passado dia 28 de Fevereiro.

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

A nossa identidade cultural.



Sou dos que pensam que o desenvolvimento, enquanto processo de construção do bem-estar colectivo, deve andar sempre de mãos dadas com a cultura de um povo, de um grupo ou de um lugar.
O desenvolvimento não se deve processar contra a história ou contra o passado de uma qualquer comunidade. Antes pelo contrário, ele valida-se correctamente se souber integrar e respeitar devidamente as componentes identificativas que caracterizam esses grupos e espaços de vida, sendo adequado propugnar por melhorias e benfeitorias materiais nesses espaços, e não pela destruição, pura e simples, de tais monumentos da memória colectiva de uma dada comunidade.
Os exemplos que pululam por esse mundo fora, sobretudo nos países mais desenvolvidos, onde os espaços e valores da memória colectiva são cada vez mais protegidos, acarinhados e valorizados, demonstram bem que os verdadeiros intérpretes dos desejos de desenvolvimento sustentado são também os mais fiéis depositários e defensores das riquezas patrimoniais, artísticas e monumentais, materiais e imateriais, que identificam uma nação, um conjunto de nações (na perspectiva civilizacional) ou, tão simplesmente, um pequeno lugar, uma vila ou cidade, uma região…
Parece pacífico que as identidades culturais se afirmam mais na preservação da distinção e na valorização da diferença, e menos na criação de cópias redutoras ou na fobia insana de construção de semelhanças ou parecenças. Ou seja, destruir algo que é singular e único, verdadeiramente diferente de tudo o mais que conhecemos para, em seu lugar, construir um híbrido e descaracterizado espaço granítico, ou estacionamento para automóveis, igual a tantos outros, é acto criminoso de lesa património que deve ser repudiado e rejeitado por todos nós.
Não nos podemos esquecer que o que verdadeiramente nos distingue das outras cidades é a monumentalidade do tecido urbano da zona histórica, a tipicidade dos nossos bairros de características mais populares, os belos espaços ajardinados (infelizmente cada vez menos), a nossa história política, militar e religiosa, patente na globalidade do ambiente que se vive e respira em Lamego, diferente de todas as outras cidades. É essa a marca da nossa diferença, da nossa singularidade, da nossa própria identidade cultural…
Destruir valores patrimoniais que identificam a nossa cidade para, em sua substituição, se construir um qualquer benefício que poderia (e deveria) ter outras alternativas válidas, é um acto que não pode ser sancionado pelos lamecenses. Existem formas de resolução dos problemas de acessibilidade e estacionamento sem que se tenha de passar pela destruição do nosso património, porque optar pelas soluções mais fáceis de destruir para construir, apenas nos reforça a convicção da fragilidade, mediocridade e insensibilidade dos responsáveis por tais opções.
E depois, quanta legítima suspeição se não levanta a qualquer lamecense, pelo método seguido para se atingir tão insensatos objectivos, de se tentar fazer obra a qualquer preço, rapidamente e em força, sejam quais forem as nefastas consequências que daí possam advir… Não faz muito sentido e é estranho tal comportamento!
Nesta matéria, como em muitas outras que têm vindo a público em alguns órgãos de comunicação social, local e nacional, sou de opinião que todos deveríamos estar mais atentos ao que se passa em Lamego, já que em termos políticos, apenas podemos desejar, a quem opta por nos destruir e descaracterizar, que não sejam merecedores de uma segunda oportunidade!
Simplesmente porque a não merecem…

Agostinho Ribeiro

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

O Jardim do Campo.



Também conhecido por Jardim da República, ou Campo do Tablado, este espaço verde é, e será sempre, um espaço referencial para todos os lamecenses ou não lamecenses que, de alguma forma, o usufruíram e “viveram” em algum momento particular das suas/nossas vidas.
O Jardim do Campo foi “campo do tabolado”, no tempo em que os godos por aqui andaram, como podemos perceber pela leitura do breve texto que o lamecense de alma, coração e génio, Francisco J. Cordeiro Laranjo, escreveu em 1989, no seu maravilhoso repertório de memórias, que dá pelo nome de “Lamego Antiga”, e cuja leitura exaustiva, e repetida, aconselhamos aos “lamecenses” de pacotilha, sejam eles os da novíssima adesão ou os de mais antiga filiação, uns e outros a necessitarem de alguns “cuidados de saúde informativa sobre o património lamecense”, que evite a possibilidade de nos virem cometer verdadeiros crimes de lesa património, como parece que querem fazer.
Foi por iniciativa do Visconde de Guedes Teixeira (mais um lamecense de excepção) que o Jardim do Campo haveria de ter uma configuração próxima da actual, passando a ser designado por “Passeio Público” ou, como aconteceu em 1895, “para louvor à Rainha de então,” com a designação de Passeio da Rainha Regente Dona Amélia.
Que lamecense não sentirá que o Jardim da República é um símbolo histórico, cultural e urbanístico de Lamego, um ex-libris e uma referência desta cidade, que tanto se orgulha dos seus espaços públicos?

Porém, a empresa LamegoConvida, administrada pelos senhores Eng. Francisco Lopes, actual presidente da Câmara, Dr. Paulo Correia, ex-chefe de gabinete do actual Presidente da Câmara e Arq. Joaquim Miguéis, ex-director do Departamento Técnico da Câmara de Lamego, prepara-se para intervir de forma abusiva nesse espaço público, sem ao menos nos consultar previamente, a todos nós, lamecenses, sobre as razões e fundamentos que poderão justificar este verdadeiro atentado ao património público lamecense.
Faço aqui questão de os nomear para que, depois, não restem quaisquer dúvidas de quem tem a primeira responsabilidade sobre o que pode vir a acontecer naquele espaço referencial, sem contudo nos podermos esquecer de quem, na retaguarda e por omissão, possa vir a ser corresponsabilizado por tão nefasta opção urbanística, que leve à destruição total ou parcial do nosso Jardim do Campo.
O senhor Presidente da Câmara já disse, em sede de Assembleia Municipal, que nada irá acontecer ao Jardim do Campo, sem antes ter passado pelo crivo e análise dos membros da Câmara Municipal e Assembleia Municipal de Lamego. Percebemos o logro da afirmação produzida – o caderno de encargos que foi elaborado já permite e indicia alterações graves à fisionomia do lugar, e adivinhamos a defesa das alterações com o argumento de que, depois dos gastos financeiros já concretizados, seria muito complicado não dar seguimento ao processo decorrente do concurso de concepção-execução, entretanto concluído.
Vamos, pois, ter apenas oportunidade de nos pronunciarmos sobre um “dado adquirido”, para assim sermos defraudados nas legítimas expectativas que são, ao menos, as de podermos manifestar uma opinião contrária a mais este abuso do actual poder autárquico.

Estou contra este projecto, contra este método de actuação, contra os seus responsáveis e tudo indica, pela falta de informação prévia a que devíamos ter tido acesso, que estamos perante um “negócio” de contornos, no mínimo, obscuros e mais que duvidosos.
Logo veremos se o tempo me dará, ou não, razão!

Agostinho Ribeiro