segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

Museu Nacional Grão Vasco - Balanço/Síntese da comissão de serviço *


Ao terminar a minha comissão de serviço como diretor do Museu Nacional Grão Vasco, e face às decisões unânimes tomadas na Assembleia Municipal e na Câmara Municipal de Viseu, em resultado da informação prestada pelo Senhor Presidente da Câmara Municipal, solicitando a minha recondução no exercício destas funções, gostaria de agradecer aos mais altos responsáveis de Viseu, no modo plural da sua representatividade e na expressão grandiosa da sua unanimidade, a forma sempre generosa e colaborante com que nos ajudaram a cumprir a nossa missão de serviço público cultural.
Acrescem idênticas tomadas de posição de algumas entidades públicas, como a Região de Turismo Centro de Portugal e a Junta de Freguesia de Viseu, bem como de várias personalidades e entidades viseenses e não viseenses, o que me impõe o gratificante dever de a todos agradecer, profundamente emocionado, pelo extraordinário carinho e o solidário reconhecimento pelo trabalho que realizamos nestes últimos anos no nosso Museu Nacional Grão Vasco.
Assim, agradeço às entidades e pessoas que estiveram connosco envolvidas, (mais de 30 entidades envolvidas, 55 membros da Comissão de Honra do Centenário e 10 membros da respetiva Comissão Organizadora), apoiando e colaborando positivamente nas atividades museológicas, académicas, artísticas e sociais deste museu, em múltiplos projetos realizados ao longo dos últimos três anos em que tive o privilégio de o dirigir, e desejo profundamente que seja dada continuidade à afirmação e visibilidade cada vez maior do nosso Museu.
Ao longo destes três anos alargamos e aprofundamos as nossas relações institucionais com praticamente todas as instituições e entidades públicas, e muitas privadas, da sociedade viseense, alcançamos a designação de museu nacional e comemoramos, de forma que nos pareceu muito digna, diversificada nas áreas temáticas e plural nos públicos a atingir, o Centenário da Fundação do Museu Nacional Grão Vasco. Para além das inúmeras realizações performativas, graças às parcerias estabelecidas (teatro, música, dança e múltiplos eventos de caraterísticas mistas) que se destinaram a celebrar festivamente o centenário, organizamos uma série de encontros e conferências temáticas, abordando questões muito diversas da cultura, património, museologia, arte e cidadania, e apresentamos ao público uma rica e diversificada programação de exposições temporárias, tanto no museu como fora dele, para assim darmos maior visibilidade e valor ao património artístico que se encontra sob nossa responsabilidade tutelar.
Em gratificante parceria com o Departamento de Obras da DGPC, resolvemos alguns problemas estruturais com que o edifício se debatia: impermeabilizando o interior do Paço dos Três Escalões; recuperando os vãos do edifício que denotavam o efeito de degradação produzida pelas condições atmosféricas adversas; recolocando em funcionamento alguns equipamentos de controlo ambiental que se encontravam inoperacionais; e, finalmente, iniciando um processo de resolução do magno problema do controlo ambiental das salas de exposição do piso 3.
Alcançamos também muito bons resultados operacionais, com aumentos significativos em todos os dados mensuráveis da nossa gestão nos últimos três anos, com um crescimento médio anual de 24% nas receitas e de 19% nas entradas, sublinhando-se aqui que no presente ano do centenário este crescimento do número de visitantes atingiu a gratificante percentagem de mais 33% do que o alcançado no ano passado, fixando-se nos 114.568 visitantes em número absoluto de entradas, muito acima dos 100.000 visitantes que tínhamos estabelecido como meta para o centenário. Somos hoje o 5º museu do Estado (DGPC) mais visitado, e o 1º fora de Lisboa.


Também por tudo isto temos sido muito agradavelmente surpreendidos com o reconhecimento por este trabalho, e ao Museu Nacional Grão Vasco, por parte de várias entidades e instituições viseenses, às quais estaremos eternamente gratos: Beirão de Mérito Cultural, pela Confraria de Saberes e Sabores Grão Vasco; Prémio Acolhimento Adamastor MGV, pela Associação Cultural Adamastor; Prémio Anim’Arte 2015, Especial Museu Nacional Grão Vasco; Reconhecimento Freguesia de Viseu, pelos 100 anos de existência do MNGV; Menção Honrosa Rotary Clube de Viseu, pelo Centenário do MNGV; Mérito Institucional, na Gala do Comércio 2016, pela Associação Comercial do Distrito de Viseu; para, finalmente, sermos agraciados com a mais elevada distinção institucional de Viseu, a Medalha de Ouro da Cidade de Viseu, 2016, com atribuição do Título de Cidadão Honorário de Viseu, “pelos serviços de excepcional relevância que o Museu prestou ao Concelho de Viseu”.
Não podíamos ter recebido maior Honra que esta!
Encontrando-me, portanto, com o sentimento claro do dever cumprido, deixo, finalmente, um agradecimento muito especial a toda a equipa do museu, que nos respetivos campos de atuação muito contribuíram para a obtenção dos excelentes resultados alcançados, sobretudo no ano maior do centenário da fundação do museu, cujas comemorações ainda não estão finalizadas, o que está previsto acontecer em março de 2017.


A Senhora Dr.ª Paula Cardoso, técnica superior do Museu Nacional Grão Vasco, assumirá as funções de diretora do MNGV em regime de substituição, a partir do dia 1 de fevereiro do corrente, conforme despacho exarado superiormente. Profissional competente, dotada de uma rara capacidade de trabalho e de uma inquebrantável dedicação à causa pública, manifesto o meu desejo dos maiores sucessos no desempenho destas exigentes funções, na certeza de que as saberá exercer com a dignidade, capacidade e competência com que já nos habituou. A toda a equipa do MNGV desejo também os maiores sucessos e felicidades, tanto pessoais como profissionais.
A todos aqui deixo lavrado o meu muito obrigado.
Agostinho Ribeiro

* Museu Nacional Grão Vasco - A Palavra ao Diretor | 08 (Última)

terça-feira, 8 de novembro de 2016

"Além de Grão Vasco. Do Douro ao Mondego: a Pintura entre o Renascimento e a Contrarreforma" *

Intervenção de boas vindas do Diretor do Museu Nacional Grão Vasco por ocasião da inauguração da exposição "Além de Grão Vasco. Do Douro ao Mondego: a Pintura entre o Renascimento e a Contrarreforma", na presença do Senhor Presidente da República.




Senhor Presidente da República
Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa
Excelência

Permita-me iniciar esta breve intervenção com os nossos cumprimentos a Vossa Excelência, bem como a Sua Excelência o Senhor Ministro da Cultura do Governo de Portugal, Dr. Luís Filipe de Castro Mendes, e à Exma. Senhora Diretora Geral do Património Cultural, Arqª. Paula Araújo da Silva, ambos aqui também nos honrando com a sua presença, e a quem agradecemos a deferência protocolar de nos permitir dirigir hoje estas palavras de boas vindas, no ano em que comemoramos os cem anos de existência.

Um cumprimento especial é devido ao Exmo. Senhor Presidente da Câmara Municipal de Viseu, Dr. Almeida Henriques, em cujo Município e Cidade o agora secular Museu Nacional Grão Vasco assenta as suas raízes, tanto físicas, por estar localizado em pleno centro histórico da milenar cidade de Viseu, como simbólicas, pelo singular acervo que possui baseado na produção artística de excelência que em Viseu teve origem ou razão de existir, para benemérita fruição de todos nós.

Estendemos estes cumprimentos, que são também reconhecidos agradecimentos, a todos os Digníssimos Membros da Comissão de Honra e Comissão Organizadora das Comemorações do Centenário do nosso Museu, aqui presentes; aos anteriores diretores do museu aqui presentes, Alberto Correia, Alcina Silva e Filipe Pimentel; a todos os que nos cederam obras de arte em exposição, Senhoras e Senhores proprietários de algumas dessas obras, e aos fiéis depositários doutras tantas, nomeadamente os referentes às Coleções Fernando Rocha, Maria José Távora e Nogueira Ferrão Vieira, Herdeiros de António Capucho e Joaquim António Boavida; e aos Senhores Reverendos Párocos das paróquias emprestadoras, Aldeia Viçosa, S. Martinho de Mouros, São João de Tarouca, Foz-Coa, Cavernães, Castelo de Penalva, Rosmaninhal e Ferreirim; a Suas Excelências Reverendíssimas os Senhores Bispos da Guarda, Lamego, Portalegre e Castelo Branco e Viseu, bem como aos Departamentos de Bens da Igreja das Dioceses da Guarda e Viseu; Santa Casa da Misericórdia de Lamego; Diretores Regionais de Cultura do Centro e Norte, Celeste Amaro e António Ponte, também presentes; a todos os colegas, diretoras e diretores dos Museus emprestadores, as queridas amigas Ana Alcoforado e Maria João Vasconcelos, do Machado de Castro e Soares dos Reis respetivamente, Lamego, Arte Sacra de Viseu, Francisco Tavares Proença Júnior e Real Irmandade da Rainha Santa Mafalda; aos Excelentíssimos Senhores Presidentes das Câmaras Municipais dos Municípios que territorialmente abrangem a área temática selecionada, Arouca, Castelo Branco, Guarda, Idanha-a-Nova, Lamego, Penalva do Castelo, Tarouca, Vila Nova de Foz Coa e Viseu, bem como às Senhoras e Senhores Vereadores destes mesmos Municípios, e demais autarcas aqui presentes.
Minhas Senhoras e meus Senhores, comunicação social presente, a todos o nosso muito obrigado pela vossa presença.
Senhor Presidente da República
A 16 de janeiro deste ano, entendeu Vossa Excelência visitar o nosso Museu, atitude que muito nos agradou registar pelo profundo significado que tal ato representou, ao alcandorar um museu localizado no interior centro do País ao estatuto de equipamento cultural da maior relevância para a afirmação identitária nacional e, enquanto tal, merecedora da visita que então ocorreu. E logo garantiu que nos visitaria oficialmente ainda no decorrer das Comemorações do Centenário, por ser Sua profunda convicção que o papel deste museu não podia deixar de ser dignificado ao mais alto nível, em honra de todos os que por aqui deixaram a sua marca produtora de cultura: desde o maior pintor do renascimento português, o celebrizado Grão Vasco que dá o nome ao museu, passando por todos os mecenas, doadores, artistas e artesãos que enriqueceram com as suas generosas dádivas, saberes, criatividade e perícia técnica as fantásticas coleções que possuímos e expomos, até aos diretores e colaboradores desta instituição já secular que, ao longo de cem anos, começando em Almeida Moreira, primeiro diretor desta casa, contribuíram de forma competente e empenhada, para o engrandecimento, estudo, conservação e divulgação de um acervo cuja qualidade e importância artística e histórica acabou por resultar na requalificação do edifício e, mais recentemente, na sua designação como Museu Nacional. Este título, devemos sublinhar, muito orgulha a sociedade viseense, por não só colocar o Museu Grão Vasco no patamar que muito justamente merece, mas também por dar maior visibilidade à cidade e região de Viseu, ao integrar o excessivamente parco grupo de cidades portuguesas dotadas de museus com tal titularidade, nos mapas nacionais e internacionais que sinalizam os equipamentos museológicos de importância nacional – Lisboa, Porto, Coimbra e, agora também, a nossa cidade de Viseu.
Da exposição em si, e do Catálogo que a irá perpetuar, já o mais importante foi referido no decorrer da visita às incomparáveis obras de arte que constituem a seleção criteriosa dos seus Comissários, Joaquim Caetano e José Alberto Seabra Carvalho, a quem agradecemos a disponibilidade para o terem sido mas, sobretudo, a competência demonstrada na sua concretização, complementados que são com os excelentes contributos em Catálogo de Celina Bastos, Dalila Rodrigues, Joaquim Inácio Caetano, Luís Urbano Afonso e Vítor Serrão, cujos méritos científicos, académicos e técnicos são conhecidos, e reconhecidos, por todos nós.
Esta exposição é uma organização da Direção Geral do Património Cultural, de quem dependemos institucionalmente, e que consideramos exemplar por resultar da parceria estabelecida entre o Museu Nacional de Arte Antiga e o nosso Museu, com os resultados que estão à vista. Cumpre-nos pois, agradecer de forma muito especial ao colega e amigo diretor do MNAA, António Filipe Pimentel, pela disponibilidade manifestada desde a primeira hora para concretizarmos este desejo programático do centenário, para além dos agradecimentos que agora reforçamos junto da Exma. Senhora Diretora Geral do Património Cultural e de Sua Excelência o Senhor Ministro da Cultura, enquanto entidades responsáveis e tutelares de ambos os museus.
Importa porém sublinhar que para estas comemorações do Centenário do Museu Nacional Grão Vasco foram já realizadas múltiplas ações e atividades ao longo do ano, em boa verdade tendo já começado no último trimestre de 2015, com o seu encerramento previsto apenas para o próximo ano, em mais de 50 projetos desenvolvidos através das parcerias estabelecidas com diferentes e muitos agentes locais, regionais e nacionais, relevando a parceria institucional com o Município de Viseu, por intermédio do permanente e esclarecido apoio do Senhor Presidente da Câmara Municipal, Dr. Almeida Henriques, a quem reforçamos presencialmente os nossos agradecimentos. Presença e apoio que, de resto, é assídua e constante, para honra e dignificação da entidade que representamos, extensíveis a toda a Vereação, com destaque à Senhora Vereadora do Pelouro da Cultura, Dr.ª Odete Paiva, e restantes órgãos autárquicos, fazendo com que o Museu em tudo postule uma inequívoca procura e afirmação de pluralismo temático e diversidade artística, porque um museu é hoje, ou deve ser hoje entendido como um espaço plural e de dinamização cultural assumido na plenitude possível das artes e dos seus criadores, passados e presentes. A que acrescentamos os nossos agradecimentos pelo imprescindível apoio do Grupo de Amigos do Museu Nacional Grão Vasco, Associação GAMUS, nos seus lídimos e sempre atentos representantes Dr.ª Ana Correia e Sr. Mauro Melo, também aqui presentes, ao Grupo Visabeira, nossos permanentes mecenas, na pessoa do seu Presidente, Senhor Engenheiro Fernando Nunes e Diretor da Visabeira Turismo, Dr. José Arimateia e à Lusitânia Seguros, Dr. Eduardo Farinha.


Como referimos na introdução ao catálogo, e passo a citar “Um museu contemporâneo […] deve arrojar-se ao desafio da procura de novos caminhos que saibam e se consigam equilibrar, balanceando-se entre os tempos históricos e artísticos onde o erudito e o popular possam conviver, o antigo e a contemporaneidade se cruzem, e as tradicionais funções museológicas coabitem com as diversas aspirações e expetativas dos novos públicos emergentes. […] Só assim saberão e poderão cumprir os seus mais elevados desígnios institucionais (museológicos, culturais, artísticos e de cidadania) sem prejuízo da validade e permanência das tradicionais funções que a estas instituições estão cometidas.” E é por isto mesmo que a par desta magnífica exposição de arte antiga portuguesa podemos apreciar neste preciso momento, e numa outra sala especialmente disponibilizada para o centenário, uma exposição de pintura contemporânea da autoria de uma artista viseense, com créditos firmados já a nível nacional e internacional, Maria de Barros Abreu, em claro testemunho da colocação em prática dos princípios que defendemos no âmbito da museologia contemporânea.
Aproveitando, portanto, este magnífico momento de nos podermos focalizar em assuntos da maior relevância para a construção da identidade nacional, como são as questões da cultura e do património artístico móvel, gostaríamos de sublinhar que é nossa convicção ser esta exposição “uma das mais relevantes realizações do centenário do nosso Museu, como contributo inquestionável que dá à História da Arte em Portugal, pela oportunidade única que generosamente nos concede ao reunir um notável conjunto de obras dos séculos XVI e XVII, em forma modelar como nunca antes tinha sido apresentada publicamente, para benefício dos estudiosos e fruição descomprometida de todos os amantes da cultura, da arte e do conhecimento” conforme referimos, aliás, no catálogo agora em lançamento.



Permitam-me Vossas Excelências lavrar aqui um agradecimento ao Millennium bcp, nos seus mais altos responsáveis Dr. Nuno Amado e Embaixador António Monteiro, e muito especialmente à Fundação Millennium bcp, na personalidade incomparável do seu Presidente, Dr. Fernando Nogueira, espírito superior de clarividência, adesão e apoio permanente às causas maiores da arte e da cultura nacionais, aqui presente na generosa qualidade de primeiro responsável pelo facto de ser esta Fundação Millennium bcp o Mecenas exclusivo das nossas Comemorações. Que exemplo notável este e que belo Portugal não teríamos mais próximo de nós, no campo das artes e da cultura, da salvaguarda, valorização e estudo do nosso património móvel e edificado, se algumas das empresas de maior significado e preponderância económica e financeira tivessem o vislumbre de lhe saber seguir os passos!
Às e aos colaboradores deste Museu que, como sempre temos vindo a referir insistentemente desde há muitos anos a esta parte, são poucos, muito poucos na verdade, mas excelentes no empenho e entrega à causa maior que nos motiva todos os dias, agradecemos o trabalho desenvolvido, permitindo-nos hoje nomear Graça Abreu, Paula Cardoso e Alcina Silva, pela especial dedicação a esta exposição em particular, mas nestas nossas colaboradoras agradecendo a todos os restantes membros desta equipe de trabalho que se não poupa a esforços continuados para que o Museu seja, em cada dia que passa, uma referência do património e da cultura viseense, à escala nacional e internacional.



Senhor Presidente da República
Excelência

Não poderíamos estar hoje a comemorar o centenário de forma melhor que esta. Isto porque inauguramos uma exposição que é um desafio à investigação histórica a propósito dos movimentos artísticos regionais e nacional, sugerindo caminhos até agora pouco explorados; e porque nesta exposição, de uma beleza estética inigualável, traduzida nas magníficas formas e sentidos das obras de arte selecionadas, temos o relevantíssimo contributo de honra que a presença de Vossa Excelência, Senhor Presidente da República, a todos confere e beneficia – ao Museu, especialmente, e a esta cidade e região de Viseu a quem este Museu deve a sua agora secular existência.
É, portanto, com indisfarçável orgulho e satisfação que hoje temos Vossa Excelência junto de nós, na visita inaugural que acabamos de fazer a esta exposição, seguramente a mais emblemática das que integram o nosso vasto e diversificado Programa das Comemorações e, nesta circunstância, alcandorada muito justamente ao benefício honorífico e simbólico da visita presidencial que agora decorre, magnificamente complementada com a apresentação pública do respetivo Catálogo, que no final iremos solenemente formalizar com a assinatura presidencial aposta ao exemplar que ficará guardado no nosso Arquivo Histórico, para memória futura.
Bem hajam todos pela Vossa presença.
Muito obrigado.
Agostinho Ribeiro

* Museu Nacional Grão Vasco - A Palavra ao Diretor | 07

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

O Município de Viseu atribui a Medalha de Ouro ao Museu Nacional Grão Vasco *



Decorreu hoje, 25 de Agosto de 2016, numa das salas de exposições temporárias do museu, a reunião pública semanal do executivo camarário viseense.
Nesta reunião o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Viseu, Dr. Almeida Henriques, propôs a atribuição da Medalha de Ouro da Cidade de Viseu a este Museu, proposta esta que foi aprovada por unanimidade de todos os presentes.
Pela relevância histórica que tal decisão possui, sobretudo para a vida desta instituição museológica de Viseu, entendemos dar o devido destaque ao acontecimento, o que agora fazemos com genuíno orgulho e incomensurável satisfação.
O Senhor Presidente da Câmara Municipal de Viseu fundamentou a sua proposta na qualidade excepcional do acervo histórico/artístico do nosso museu, com especial relevância para a singularidade e genialidade da obra do pintor viseense Vasco Fernandes, o Grão Vasco que dá o nome ao museu; no trabalho dedicado do seu primeiro diretor, Francisco de Almeida Moreira, que tão bem soube engrandecer o acervo inicial do museu; nos contributos de todos os diretores que lhe sucederam, simbolizados na obra de requalificação da autoria do Arquiteto Souto de Moura, ao tempo da direção de Dalila Rodrigues; na designação desta entidade museológica como Museu “Nacional”, obtida no ano transacto, concedida pelo Estado Português no simbólico Dia Internacional dos Museus (18 de Maio de 2015); e pela profundidade temporal da sua existência, agora secular, no exato ano em que comemoramos o seu centenário.
A entrega da Medalha de Ouro da Cidade será formal e solenemente atribuída ao Museu no próximo dia 21 de Setembro, Dia de São Mateus e do Município de Viseu.
Foi-nos, depois, concedida a possibilidade de agradecer, tanto em nome pessoal como em nome de toda a equipa de trabalho do museu, a honrosa distinção com que o museu foi brindado, recordando todos os directores e colaboradores que ao longo deste século de existência contribuíram com o seu esforço, dedicação e competência, para que o museu seja hoje a instituição que é – um museu de portas abertas, em franco crescimento sustentado e inclusivo, cioso do seu património artístico e histórico de relevância nacional e internacional, mas atento à criação artística contemporânea, de valor diverso e amplitude local, regional e nacional, que ajuda a promover e a valorizar. Fizemos ainda questão de honrar todos os directores que antecederam à atual gestão desta instituição museológica, e com eles todos os funcionários e colaboradores que neste museu trabalharam, como segue:
- Francisco de Almeida Moreira;
- Albano Portocarrera Coutinho;
- António Santos Beirão;
- Fernando Russel Cortez;
- Abel Montenegro Florido;
- Alberto Correia;
- Dalila Rodrigues;
- Maria João Pinto Correia;
- Ana Paula Abrantes;
- Agostinho Ribeiro;
- António Filipe Pimentel;
- Alcina dos Anjos Silva;
- Sérgio Gorjão.
Ainda nos foi concedida a oportunidade de fazer uma breve referência ao desenvolvimento do Programa do Centenário da Fundação do Museu, até ao presente momento com uma taxa de execução na ordem dos 90%, a que acrescentamos a divulgação dos mais importantes eventos que ainda irão ocorrer até final das Comemorações do nosso Centenário.
Não deixaremos de ir anunciando esses eventos, à medida que o calendário o determine, para eventual fruição de todos os interessados.
Aqui deixamos lavrado, para memória futura, este momento de relevância extraordinária para a vida do Museu Nacional Grão Vasco.
Muito obrigado.
Agostinho Ribeiro

*  Museu Nacional Grão Vasco - A Palavra ao Diretor | 06

sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Já somos Museu Nacional Grão Vasco *

1 - Fazer de cada dia, um dia especial… no museu.




O que faz, de cada dia, um dia especial no museu? Esta é a pergunta para mil respostas, todas importantes e todas certamente adequadas, consoante a perceção do interlocutor envolvido. E como é humanamente impossível fazer tudo para que todos os dias sejam assim, especiais para cada um de nós, temos que saber gerir as expetativas que aos diversos grupos de pessoas se colocam, quando o dia deles é, também, o dia do (nosso) museu.

Por isso, quando se afirma que determinado evento não cabe na filosofia de ação do museu, convém cuidarmos atentamente do alcance e significado das palavras que usamos, porque estar fora da filosofia de atuação de uma instituição, seja ela qual for, pressupõe o conhecimento pleno e aprofundado que dela temos, desde logo no domínio concetual em torno das funções maiores para que a mesma está destinada. Esta obrigação de conhecimento é fundamental para que tais considerações não sejam, ou possam ser, interpretadas como resultado de um mero complexo preconceituoso em relação a determinadas práticas, ditas culturais por uns, mas que se não encaixam na mundividência (cultural) doutros, apenas porque são modeladas ao sabor do gosto pessoal... Mundividência certamente importante e meritória mas, ainda assim, parcelar e singular no todo que a individualidade transporta para o pensamento coletivo, uma vez que as modas são também, por definição, perenes.

Não nos devemos esquecer que o preconceito (intelectual e/ou filosófico), por muito refletido que seja, transporta em si mesmo o gérmen da intolerância perante a diversidade e a multiplicidade que faz a riqueza do ato cultural. Reduzindo esta postura ao campo que agora nos importa, o da museologia, podemos perguntar sobre o que nos permite garantir e atestar, mas sem fundamentar devidamente com critérios adequados e validados genericamente por uma parte substantiva da comunidade (museológica e não museológica), que uma determinada atividade se enquadra na filosofia de atuação deste ou daquele museu, mas aquela outra, mais fora das baias comuns à atuação corrente museológica, já não?
Do ponto de vista da perceção individual, o que nos faz concluir que o nosso (meu) entendimento, gosto ou tendência é, supostamente, mais válido que o do meu vizinho?
Se é certo que nunca poderemos ter a certeza da validade integral das nossas opções programáticas; e se é certo também que tais opções não podem contrariar os princípios fundamentais que dão razão de ser à existência dos museus; mais certo ainda é a constatação de que nos sobra uma margem de manobra muito grande onde o processo de integração comunitária na vida dos museus pode ser concretizado em profícuo benefício de todos.
Mesmo correndo o risco de parecermos pretensiosos, não escondemos a satisfação pelo trabalho realizado até agora, neste âmbito de grande abertura e cumplicidade com outros protagonistas da criação artística e cultural viseense, sejam eles públicos ou privados, institucionais ou associativos, coletivos ou individuais. Prestamos, portanto, um serviço à comunidade, através da sua integração na vida do museu, que nos parece ser a melhor forma de captarmos e fidelizarmos públicos, na diversidade em que tais “públicos” (precisamente no plural) se constituem e organizam em torno da visita e fruição do quanto temos sabido produzir e oferecer.

2 - Já somos, oficialmente, Museu Nacional Grão Vasco.

E é nessa precisa forma de correspondermos às mais legítimas e genuínas expetativas da comunidade com quem trabalhamos, que alcançamos o feito histórico, neste ano de 2015, de obtermos a designação “Nacional” para o nosso Museu Grão Vasco. A partir de agora, como Museu Nacional Grão Vasco, aumentam as responsabilidades de todos – nossas, porque devemos estar à altura desse magnífico estatuto de Museu Nacional; e de todos os viseenses, que muito poderão fazer para que tal estatuto represente uma indisfarçável e salutar vaidade das nossas gentes, pretendendo nós que signifique um aumento exponencial de visitantes e um crescimento da economia local, por via da divulgação e participação de todos na vida desta instituição de cultura viseense.
Para esta qualificação fundamental, em termos oficiais, não poderia ter havido melhor dia que o passado 18 de maio de 2015, precisamente o Dia Internacional dos Museus, altura em que foi publicado o Despacho nº 5123/2015 do Senhor Secretário de Estado da Cultura, em Diário da República, cerca de nove meses depois de termos requerido tal designação.
A todos os que trabalharam empenhadamente na concretização deste objetivo estratégico, em benefício de Viseu e do Património Cultural Nacional, deixamos aqui lavrado o nosso profundo e reconhecido agradecimento.



Agostinho Ribeiro
Diretor

* Museu Nacional Grão Vasco - A Palavra ao Diretor | 05

quarta-feira, 27 de maio de 2015

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas 2015. Da simbologia da escolha de Lamego.


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Da simbologia da escolha de Lamego

No passado dia 25, segunda-feira, a Comissão Organizadora do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas 2015, da qual me honro de fazer parte, foi recebida em audiência pelo Senhor Presidente da República, seguida de um almoço que nos foi gentilmente oferecido, agora na companhia da Senhora Dr.ª Maria Cavaco Silva, e onde pudemos constatar a enorme e gratificante consideração que ambos (Presidente e Esposa) possuem por Lamego e, de uma maneira geral, por toda a região do Douro.
Confesso que me impressionou muito positivamente o conhecimento aprofundado que demonstrou possuir sobre o território e a sua História, discorrendo magnificamente sobre o papel de Lamego na fundação da nacionalidade portuguesa, e dos contributos posteriores que algumas figuras maiores, ligadas a Lamego, deram a Portugal. Como foi o caso do famoso Bispo nosso Embaixador, D. Miguel de Portugal, que será homenageado num dos momentos mais solenes destas Comemorações.
Aliás, o argumento maior que o Senhor Presidente da República nos ofereceu para justificar inquestionavelmente a razão de ser da opção tomada é a razão maior, e irrebatível, do papel fundamental que a cidade de Lamego teve e tem na construção da Portugalidade, cuja representatividade e valor simbólicos foram tão poderosos, à época em que ocorreu, que chegou ao ponto de ter sido a cidade "escolhida" como lugar onde ocorreram as hipotéticas primeiras cortes do reino, ainda que por documento apócrifo, com base numa cópia supostamente forjada, da autoria de Frei António Brandão.
Referiu o Senhor Presidente da República, muito oportunamente, que no escrutínio das cidades potencialmente adequadas à distinção, não encontrou cidade do interior do país, fora das capitais de distrito e a par de Elvas, que mais e melhor simbolizassem o serviço da cidadania à causa nacional, nos tempos heróicos da fundação e históricos da sua construção, que a nossa vetusta e bela cidade de Lamego! Detentora de uma História notável; possuidora de bens patrimoniais de eleição que fazem da região de Lamego a região do interior do país com maior densidade de imóveis classificados (como Monumentos Nacionais e Imóveis de Interesse Público); para além do património artístico museológico de exceção, bem patente no acervo do Museu de Lamego, uma das mais relevantes jóias detentoras de um património artístico nacional de eleição, tutelado pelo Estado; tudo se conjugando para que a meritória decisão pendesse inquestionavelmente para o lado dos lamecenses.
Não são, pois, necessários mais argumentos a favor desta opção do Senhor Presidente da República, e penso mesmo que esgrimir razões conjunturais, que nada podem ter a ver com as razões primordiais avocadas, será apoucar Lamego na sua importância incontornável que a História de Portugal lhe confere.
O tempo destas comemorações não é o da luta política do presente – tem as suas raízes no passado e será motivo de orgulho no futuro, porque é de um ato simbólico, do maior significado para Portugal, que estamos a tratar. O presente é apenas o momento em que todos, sem exceção, deveríamos estar de acordo, pela simples razão que Lamego é um todo, ainda que feito de partes diversas, tantas vezes necessária e absolutamente antagónicas.
Mas a sua simbologia nacional a todos pertence, de todos é propriedade e a nenhuma das partes lhe é conferido o direito dela se apropriar indevidamente.
Por Lamego, e por Portugal.
Aqui deixo lavrado o meu agradecimento ao Senhor Presidente da República Portuguesa, Prof. Aníbal Cavaco Silva.
Agostinho Ribeiro

* Fotografia copiada do lugar internet da Presidência da República http://www.presidencia.pt/?idc=10&idi=92911 .

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, 2015, na cidade de Lamego.


 
Sobre a minha participação, que muito me honra, como vogal na Comissão Organizadora das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, 2015, a realizar em Lamego, importa esclarecer junto dos meus concidadãos lamecenses, o seguinte:
1 – O Dia de Portugal não é, por essência e definição, propriedade particular de nenhum partido, pessoa ou grupo, nem está refém de interesses estranhos à sua específica natureza e condição, de dimensão nacional e projeção internacional, sempre e em todas as circunstâncias e lugares onde ocorre, e em que têm ocorrido as respetivas comemorações;
2 – O Dia de Portugal não é nenhum detergente ou branqueador que possa servir de pretexto ou razão para “lavar” ou “branquear” seja o que for, porque não é sua função simbólica, do mais alto significado para Portugal, constituir-se como motivo para validar práticas políticas, sejam elas boas ou más, mereçam elas, ou não, a nossa concordância ou adesão;
3 – O Dia de Portugal é o dia de todos os portugueses, independentemente das suas convicções políticas e filiação partidária, e de todo o território nacional e da diáspora, sob a responsabilidade tutelar do mais Alto Magistrado da Nação, como deve ser num País Democrático como é o nosso;
4 – O Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas diz respeito a todos os portugueses, e eu sou um deles, com todos os direitos e deveres associados a esta inata e nobre condição.
Por estas razões, integrar a Comissão Organizadora das Comemorações do 10 de junho, em 2015, na cidade de Lamego é, para mim, uma honra e um dever – honra por ter merecido tal distinção, juntamente com outras pessoas que muito estimo; e um dever de cidadania porque, tratando-se de Portugal e dos portugueses, no seu todo e não em qualquer uma das partes que o constitui, a ninguém que defenda os valores da democracia e da república se permitirá furtar a tamanha responsabilidade nacional.
Por tudo isto, agradeço ao Senhor Presidente da República o convite que me endereçou, e agradeço a todos os que tiveram a amabilidade de sugerir o meu nome, na certeza de que as comemorações de 10 de junho de 2015 prestigiarão, uma vez mais, Portugal, no seu território e além-fronteiras, e prestigiam a cidade de Lamego e as suas gentes, como cidade secular e histórica cujo papel relevante na fundação e afirmação da nacionalidade jamais pode ser esquecida ou obliterada, e muito menos amputada na sua nobreza e dignidade, por razões conjunturais e circunscritas a um tempo político de reduzida dimensão, que é o nosso.
É tão simples quanto isto! Obrigado.
Agostinho Ribeiro
 

sábado, 21 de março de 2015

Cultura e Património ao serviço da Economia.*



O título é, porventura, excessivo, mas propositadamente assumido pelas suas implicações conceptuais, que se poderiam resumir a uma simples questão – a cultura deve estar ao serviço da economia ou, pelo contrário, deve esta estar ao serviço daquela?

Já a este propósito, mas reduzindo o âmbito temático da equação, discorri há uns dias atrás, numa comunicação destinada a jovens formandos da área do turismo, na pretensão de se perceber se os museus (uma “parcela” importante da materialidade da nossa cultura) estavam ao serviço do turismo (outra “parcela” também importante, mas agora da economia nacional) ou se, pelo contrário, estava o setor crescente do turismo ao serviço da cultura. E, em qualquer dos casos, tentar saber como poderíamos quantificar tais serviços prestados, de cada um para cada outro.

Ora o turismo, sendo um setor ou domínio (como preferirem) da ciência económica, é também um instrumento de natureza social, pelas razões que todos conhecemos, inserindo-se num contexto mais alargado da economia enquanto ciência social, utilizando cada vez mais, a seu favor, produtos culturais de diversa construção identitária, que vulgarmente designamos por artes. Resulta claro, portanto, que a cultura tem estado ao serviço da economia, mesmo quando a economia, despida dessa abstração teórica dos conceitos e formulações metodológicas de caráter científico, a chamada “economia real”, na sua aplicabilidade prática, nos parece querer demonstrar o contrário. Isto porque, por vezes, somos levados a crer que vultuosos investimentos em setores específicos da área cultural ou patrimonial, refletem um espirito meramente altruísta, sem cuidarmos de perceber o retorno que se espera, e em todo o caso se deseja, desses mesmos investimentos. Mais ou menos distendido no tempo, esse retorno deveria ser sempre esperável, sobretudo quando a origem do investimento é oriundo de um exercício, supostamente pensado, de políticas públicas de investimento na área da cultura.

Infelizmente, em Portugal, nem sempre o exercício é suficientemente refletido, nem o retorno, mesmo que seja de natureza supra financeira, é sequer equacionado. A evidência maior desta lamentável ausência, talvez seja, nos dias que correm, o estranho fenómeno que levou à construção do novo Museu Nacional dos Coches que, em todo o caso, é exemplarmente representativo do deslumbramento serôdio decorrente da falta de pensamento e de reflexão consistente sobre estes assuntos do património cultural, na sua articulação com os recursos financeiros disponíveis, sejam eles intempestivos ou não.

Mas este, e outros casos parecidos com este, não devem ser inscritos nas lógicas dos investimentos na área da cultura onde o retorno se esperava de forma antecipadamente assumida. Penso mesmo, dadas as diversas valências que enformaram todo este processo que, simplesmente, não se esperava nada, numa indigência tamanha de política cultural, que temo bem que se tenha inscrito no quadro da irresponsabilidade com que são tomadas as decisões arbitrárias de alguns governantes. De facto, nada aconselharia o uso de dinheiros públicos, provenientes de contrapartidas únicas do turismo (Casino de Lisboa) na construção de um museu com estas caraterísticas – mais de 35 milhões de euros investidos na sua edificação, a que devemos associar custos permanentes de funcionamento que irão custar ao erário público mais de 3 milhões de euros por ano. Tudo isto feito na maior das tranquilidades, mesmo depois das entidades mais representativas do setor museológico, como foi o caso exemplar do ICOM-Portugal, terem alertado para a total inconsistência e falta de razoabilidade da opção seguida. Qualquer tentativa de estimar receitas próximas destas colossais despesas, para tentar justificar o injustificável, só pode ser considerada por nós um duvidoso exercício de sentido de humor, ou então de pura má-fé…

É claro que se Portugal não pode ser considerado um bom exemplo nestas práticas relacionais, a partir dos mais emblemáticos casos que têm acontecido por cá, isso não significa que não possamos, ao menos, tecer considerações gerais sobre o assunto e admitir que a Cultura tem estado mesmo ao serviço da Economia, sendo desejável que, em contrapartida, os setores que mais beneficiam dos serviços ditos culturais, invistam melhor, e mais, na requalificação do existente e na criação de novos equipamentos ou eventos, como hoje é moda dizer-se. E digo bem, quando priorizo a qualidade para o existente, em detrimento da quantidade para o novo, porque me parece que, antes de irmos mais longe em novos investimentos na área da cultura, precisamos urgentemente de melhorar os critérios e os modelos de financiamento adequados e ajustados, destinados aos já existentes. Retomando o caso exemplar acima descrito, temos o pleno direito de perguntar se fará algum sentido que o Estado invista algumas dezenas de milhões de euros na construção de raiz de uma infraestrutura desnecessária, para substituir outra que cumpria bem a sua função, deixando à míngua dezenas de outras instituições similares que permanentemente se confrontam com prosaicas necessidades de funcionamento, e cujas resoluções são sistematicamente adiadas, “por falta de verbas”!? E, de permeio, fazendo com que uma instituição museológica que até era tendencialmente autossustentável passe a ser altamente deficitária para as finanças públicas nacionais.

Em boa verdade, se a economia tem, em si mesma e do ponto de vista da análise sociológica, associada a ideia da “necessidade”, em contraponto e justaposição à ideia da “liberdade”, que carateriza o saber e a prática culturais, como muito bem a definiram Rita Raposo e João Carlos Graça, em 2004, (Cultura e economia: Um trajecto de afinidades e oposições electivas, in Actas dos ateliers do V Congresso da Associação Portuguesa de Sociologia Sociedades Contemporâneas: Reflexividade e Acção Teorias e Metodologias de Investigação), então não nos parece que possamos ou devamos colocar a tónica numa relação de subserviência, por manifesta inexistência de sentido, antes devendo colocá-la numa lógica de complementaridade, ainda que reconhecendo que faz mais falta à sociedade atual, conjuntural, uma cultura (teórica e prática) ao serviço da economia, que o contrário.

Naquela interessante comunicação, os autores refletem sobre o conceito de cultura que, pela sua “estreita associação à ideia de liberdade”, se opunha diretamente à ideia de necessidade, a que as ciências económicas estavam hipotecadas (e ainda estão, ironicamente, nos tempos de crise que atravessamos), conceito este que só a pós-modernidade transformaria na ideia de uma fusão “economia-cultura”, aqui admitindo a vivência de um “cume de auto consciência societária” que, segundo creio, esbateria a oposição e sublinharia a integração (dos conceitos), altura em que a economia e a cultura andariam de tal modo ligados que se confundiriam totalmente. Talvez por tudo isto, estejamos mais próximos, hoje em dia, de uma noção ideal de complementaridade. Em todo o caso, esta noção ainda tem de amadurecer muito até alcançar a plenitude de o ser, no concreto das políticas públicas definidas para a cultura e no pragmatismo dos agentes económicos que nela encontram um instrumento válido de afirmação e excelência que se não esgote, apenas, na vã glória do mediatismo momentâneo, que faz de qualquer investimento na cultura um ato meramente publicitário.

Agostinho Ribeiro

* Publicado no Suplemento Viseu Económico, Jornal do Centro, nº 674, de 13 de março de 2015.