sábado, 21 de março de 2015

Cultura e Património ao serviço da Economia.*



O título é, porventura, excessivo, mas propositadamente assumido pelas suas implicações conceptuais, que se poderiam resumir a uma simples questão – a cultura deve estar ao serviço da economia ou, pelo contrário, deve esta estar ao serviço daquela?

Já a este propósito, mas reduzindo o âmbito temático da equação, discorri há uns dias atrás, numa comunicação destinada a jovens formandos da área do turismo, na pretensão de se perceber se os museus (uma “parcela” importante da materialidade da nossa cultura) estavam ao serviço do turismo (outra “parcela” também importante, mas agora da economia nacional) ou se, pelo contrário, estava o setor crescente do turismo ao serviço da cultura. E, em qualquer dos casos, tentar saber como poderíamos quantificar tais serviços prestados, de cada um para cada outro.

Ora o turismo, sendo um setor ou domínio (como preferirem) da ciência económica, é também um instrumento de natureza social, pelas razões que todos conhecemos, inserindo-se num contexto mais alargado da economia enquanto ciência social, utilizando cada vez mais, a seu favor, produtos culturais de diversa construção identitária, que vulgarmente designamos por artes. Resulta claro, portanto, que a cultura tem estado ao serviço da economia, mesmo quando a economia, despida dessa abstração teórica dos conceitos e formulações metodológicas de caráter científico, a chamada “economia real”, na sua aplicabilidade prática, nos parece querer demonstrar o contrário. Isto porque, por vezes, somos levados a crer que vultuosos investimentos em setores específicos da área cultural ou patrimonial, refletem um espirito meramente altruísta, sem cuidarmos de perceber o retorno que se espera, e em todo o caso se deseja, desses mesmos investimentos. Mais ou menos distendido no tempo, esse retorno deveria ser sempre esperável, sobretudo quando a origem do investimento é oriundo de um exercício, supostamente pensado, de políticas públicas de investimento na área da cultura.

Infelizmente, em Portugal, nem sempre o exercício é suficientemente refletido, nem o retorno, mesmo que seja de natureza supra financeira, é sequer equacionado. A evidência maior desta lamentável ausência, talvez seja, nos dias que correm, o estranho fenómeno que levou à construção do novo Museu Nacional dos Coches que, em todo o caso, é exemplarmente representativo do deslumbramento serôdio decorrente da falta de pensamento e de reflexão consistente sobre estes assuntos do património cultural, na sua articulação com os recursos financeiros disponíveis, sejam eles intempestivos ou não.

Mas este, e outros casos parecidos com este, não devem ser inscritos nas lógicas dos investimentos na área da cultura onde o retorno se esperava de forma antecipadamente assumida. Penso mesmo, dadas as diversas valências que enformaram todo este processo que, simplesmente, não se esperava nada, numa indigência tamanha de política cultural, que temo bem que se tenha inscrito no quadro da irresponsabilidade com que são tomadas as decisões arbitrárias de alguns governantes. De facto, nada aconselharia o uso de dinheiros públicos, provenientes de contrapartidas únicas do turismo (Casino de Lisboa) na construção de um museu com estas caraterísticas – mais de 35 milhões de euros investidos na sua edificação, a que devemos associar custos permanentes de funcionamento que irão custar ao erário público mais de 3 milhões de euros por ano. Tudo isto feito na maior das tranquilidades, mesmo depois das entidades mais representativas do setor museológico, como foi o caso exemplar do ICOM-Portugal, terem alertado para a total inconsistência e falta de razoabilidade da opção seguida. Qualquer tentativa de estimar receitas próximas destas colossais despesas, para tentar justificar o injustificável, só pode ser considerada por nós um duvidoso exercício de sentido de humor, ou então de pura má-fé…

É claro que se Portugal não pode ser considerado um bom exemplo nestas práticas relacionais, a partir dos mais emblemáticos casos que têm acontecido por cá, isso não significa que não possamos, ao menos, tecer considerações gerais sobre o assunto e admitir que a Cultura tem estado mesmo ao serviço da Economia, sendo desejável que, em contrapartida, os setores que mais beneficiam dos serviços ditos culturais, invistam melhor, e mais, na requalificação do existente e na criação de novos equipamentos ou eventos, como hoje é moda dizer-se. E digo bem, quando priorizo a qualidade para o existente, em detrimento da quantidade para o novo, porque me parece que, antes de irmos mais longe em novos investimentos na área da cultura, precisamos urgentemente de melhorar os critérios e os modelos de financiamento adequados e ajustados, destinados aos já existentes. Retomando o caso exemplar acima descrito, temos o pleno direito de perguntar se fará algum sentido que o Estado invista algumas dezenas de milhões de euros na construção de raiz de uma infraestrutura desnecessária, para substituir outra que cumpria bem a sua função, deixando à míngua dezenas de outras instituições similares que permanentemente se confrontam com prosaicas necessidades de funcionamento, e cujas resoluções são sistematicamente adiadas, “por falta de verbas”!? E, de permeio, fazendo com que uma instituição museológica que até era tendencialmente autossustentável passe a ser altamente deficitária para as finanças públicas nacionais.

Em boa verdade, se a economia tem, em si mesma e do ponto de vista da análise sociológica, associada a ideia da “necessidade”, em contraponto e justaposição à ideia da “liberdade”, que carateriza o saber e a prática culturais, como muito bem a definiram Rita Raposo e João Carlos Graça, em 2004, (Cultura e economia: Um trajecto de afinidades e oposições electivas, in Actas dos ateliers do V Congresso da Associação Portuguesa de Sociologia Sociedades Contemporâneas: Reflexividade e Acção Teorias e Metodologias de Investigação), então não nos parece que possamos ou devamos colocar a tónica numa relação de subserviência, por manifesta inexistência de sentido, antes devendo colocá-la numa lógica de complementaridade, ainda que reconhecendo que faz mais falta à sociedade atual, conjuntural, uma cultura (teórica e prática) ao serviço da economia, que o contrário.

Naquela interessante comunicação, os autores refletem sobre o conceito de cultura que, pela sua “estreita associação à ideia de liberdade”, se opunha diretamente à ideia de necessidade, a que as ciências económicas estavam hipotecadas (e ainda estão, ironicamente, nos tempos de crise que atravessamos), conceito este que só a pós-modernidade transformaria na ideia de uma fusão “economia-cultura”, aqui admitindo a vivência de um “cume de auto consciência societária” que, segundo creio, esbateria a oposição e sublinharia a integração (dos conceitos), altura em que a economia e a cultura andariam de tal modo ligados que se confundiriam totalmente. Talvez por tudo isto, estejamos mais próximos, hoje em dia, de uma noção ideal de complementaridade. Em todo o caso, esta noção ainda tem de amadurecer muito até alcançar a plenitude de o ser, no concreto das políticas públicas definidas para a cultura e no pragmatismo dos agentes económicos que nela encontram um instrumento válido de afirmação e excelência que se não esgote, apenas, na vã glória do mediatismo momentâneo, que faz de qualquer investimento na cultura um ato meramente publicitário.

Agostinho Ribeiro

* Publicado no Suplemento Viseu Económico, Jornal do Centro, nº 674, de 13 de março de 2015.

domingo, 25 de janeiro de 2015

Museu Grão Vasco, de 2014 para 2015. *

 
 
Em 2014 o Museu Grão Vasco cresceu de uma forma que pensamos sustentada e, por isso mesmo, com fortes probabilidades de continuar nesta linha ascendente, no ano que agora se inicia. Este foi o ano de afirmação da nossa estratégia operativa, nos vetores fundamentais de atuação programática – criar redes e cumplicidades institucionais; valorizar o papel do museu, através de práticas inovadoras de intervenção cultural; abrir os espaços e os serviços a iniciativas conjuntas com os nossos parceiros e amigos, que connosco entenderam por bem interagir.
Em suma, criar conexões no sentido mais amplo e abrangente da temática que o ICOM – Conselho Internacional dos Museus – definiu para o ano que findou.
E porque somos um serviço público, impõe-se um breve balanço crítico, a que o imediatismo das redes sociais agora nos impele, e que nós aceitamos de bom grado, por entendermos que assim se cumpre, também por esta via, um dos maiores desígnios que aos museus se colocam na sociedade contemporânea – a prestação de contas, revista ela a forma mais genérica e sucinta, que aqui se apresenta, ou um modelo mais detalhado e construído com base nos parâmetros superiormente definidos, nos termos regulamentares.
 
I
2014 – Das conexões que se podem estabelecer e dos resultados que se podem obter.
 
A lógica programática, ao longo deste ano, foi a de reforçar e cimentar as parcerias já existentes, acrescentar outras, diversificar áreas temáticas de atuação, interpelar entidades e pessoas no sentido de connosco colaborarem, pedindo o melhor que elas possuem e sabem, em benefícios que nos pareceram evidentes (e significativos) ao acréscimo das vivências culturais da sociedade viseense. Para atingir tais objetivos, contratualizamos com elas acordos de colaboração (com a assinatura de vinte protocolos, em sessão solene, no Dia Internacional dos Museus), a que se acrescentarão outros, em cerimónias específicas para o efeito, mas que já se encontram devidamente firmados desde o ano transato; realizamos e colaboramos na realização de várias exposições temporárias, em ritmo constante de apresentação, algumas vezes mesmo em simultâneo (“Ícones Russos”; “A Doce e Ácida Incisão – A Gravura em Contexto”, da Fundação Caixa Geral de Depósitos; Instalações Sonoras no âmbito dos Jardins Efémeros/Invisible Places Sounding Cities – “Respiro”, de Pedro Tudela e Miguel Carvalhais; “The Work Quartet”, de Mikhail Karikis; “Echo Meditation”, de Hands on Sound -; “A Colecção do Museu do Falso de visita ao Museu Grão Vasco”; “Visibilia” e “Pintura Naturalista na Coleção Millennium bcp”, que agora se encerra). Estivemos também presentes na Feira de São Mateus.
 
Fomos palco, em cooperação e coorganização com outras entidades, de Encontros e Congressos de impacto regional e nacional “Para que Serve um Sítio Património da Humanidade”, do Município de Viseu; “Cultura, Inovação e Valorização dos Recursos Territoriais no Portugal 2020”, da Secretaria de Estado da Cultura, CIM Viseu Dão Lafões e Município de Viseu; e “Habitar [Património] Viseu – D. Miguel da Silva – a obra ao tempo”, organizado pela Projecto Património, Escola Superior de Educação de Viseu, Universidade Católica – Pólo das Beiras e Museu Grão Vasco).
Recebemos ainda várias atividades de distinta temática e tipologia, em que pontificaram múltiplos eventos e as muitas e diversas performances integradas nos projetos artísticos, como foi o caso de “Viseu a…”, do Festival VIRIATUS – Viriatuna, do VISAIUM, da Música da Poesia, do Festival da Música da Primavera, do Festival de Música 2014, organizado pelo PIAGET Viseu, do Concerto de Guitarra Internacional, da comemoração do Dia Europeu da Música com concerto de guitarra clássica, do colóquio "Fake’M: conversas em torno do falso", do “48 Short Media”, dos “Jardins Efémeros”, entre outros, traduzidas em concertos, dj-set’s, instalações vídeo, apresentação de livros, Comemoração do Dia Mundial da Poesia, Dia Europeu da Música, Dia Internacional dos Monumentos e Sítios, Noite e Dia Internacional dos Museus, estágios profissionais e académicos, visitas guiadas gerais e temáticas às exposições permanentes e temporárias.
 
As entidades associativas, de ensino secundário, profissional e superior, artísticas e de cultura viseense, como o GAMUS – Grupo de Amigos do Museu Grão Vasco, o Projecto Património, o Conservatório Regional de Música de Viseu ” Dr. Azeredo Perdigão”, GICAV – Grupo de Intervenção Cultural e Artística de Viseu; IPDJ – Instituto Português do Desporto e Juventude – Viseu; o CESAE – Centro de Serviços e Apoio às Empresas; a Escola Profissional de Torredeita; a Escola Secundária de Canas de Senhorim, a Escola Profissional Mariana Seixas, a Escola Profitecla, a Santa Casa da Misericórdia de Viseu, o Cabido da Sé, a Polícia de Segurança Pública – Comando de Viseu, a Associação Comercial do Distrito de Viseu, a Ordem dos Advogados – delegação de Viseu, o Departamento dos Bens Culturais da Diocese de Viseu, o Jornal da Beira, a Fundação INATEL, o Comando distrital da GNR de Viseu, a AIRV – Associação Empresarial da Região de Viseu, o Estabelecimento Prisional de Viseu, o Grupo VISABEIRA, a FNAC Viseu, a Viseu Novo – SRU – Sociedade de Reabilitação Urbana de Viseu, a Cáritas Diocesana de Viseu, o Arquivo Distrital de Viseu, a Associação Adamastor, o CEAR – Centro de Estudos Aquilino Ribeiro, o TGV – Teatro Grão Vasco da Escola Básica Grão Vasco, a Escola Superior de Educação de Viseu, a Universidade Católica Portuguesa -  Pólo de Viseu, o Instituto Piaget de Viseu, o Teatro Viriato, a Confraria de Saberes e Sabores do Dão, o Grupo “Incógnitus”, o “Shortcutz Xpress Viseu”, e, claro, o Turismo do Centro, o Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Viseu e o próprio Município de Viseu, foram os parceiros em evidência que nos permitiram a manutenção de um calendário de eventos ao longo do ano, de tal forma intenso e proveitoso, que não padeceu de hiatos significativos entre eles.
Não deixamos, evidentemente, de desenvolver todo o trabalho de âmbito museológico menos visível aos olhos da maioria dos cidadãos, trabalho esse criteriosamente distribuído pelos parcos, mas excelentes, recursos humanos que possuímos, nas áreas fundamentais da gestão do nosso inventário e coleções, serviços educativos, monitorização e controlo dos espaços expositivos, investigação, conservação, biblioteca, arquivo e centro de documentação.
 
II
Dois destaques, pela inovação.
 
Permitimo-nos dar agora particular realce a duas iniciativas próprias que muito têm contribuído para a afirmação do Museu, no plano divulgativo. Desde logo, o próprio facto de termos criado esta página do facebook, logo no início do ano, inserindo-nos assim numa estratégia de divulgação com recurso a esta importante rede social, opção que nos tem permitido majorar exponencialmente o alcance das nossas atividades, por chegarmos quase de imediato aos milhares de pessoas que fizeram o favor de ser nossas amigas e, por via disso, ficando automaticamente conhecedoras do que fazemos, quando o fazemos, e com quem o fazemos…
Aproveitando este precioso instrumento de divulgação que agora temos à disposição, entendemos que seria interessante enriquecer esta página com informação credível, mas não excessivamente hermética, sobre muitas obras de arte que o museu possui, mas para as quais raramente olhamos com detalhe e maior profundidade analítica, não dando a devida valia a um património museológico que existe, mas não é fruído por nós. Desta intenção nasceu uma das mais populares “rubricas” da nossa página “facebookiana”, designada por “MGV | Os Dias do Mês”. Trata-se de ilustrar a temática (ou o santo do calendário católico), com uma obra artística do Museu, descrevendo sumariamente a importância do tema (ou a história do santo) e dando informação útil à obra que o ilustra. Assim, conseguimos divulgar um conjunto notável de peças do nosso acervo que, de outra forma, se manteriam relativamente ausentes do nosso conhecimento, ao mesmo tempo que supomos criar incentivos acrescidos a visitarem, e revisitarem, o nosso museu. O alcance destas publicações tem sido verdadeiramente notável, muitas vezes acima dos mil visitantes por obra de arte, o que nos prova bem da recetividade e sucesso que esta iniciativa tem junto dos nossos amigos.
 
Ainda no âmbito dos projetos inovadores, já aqui demos conta do projeto “Virtual in situ”, como o apoio mecenático da Fundação Millennium BCP. Tratou-se de disponibilizar, em todas as salas de exposição permanente do museu, de unidades “touch screen” que reproduzem virtualmente as respetivas salas, com todas as obras expostas, permitindo a todos os visitantes que pretendam obter informação mais rica e detalhada, o possam fazer através de um simples “clique” na referida imagem, obtendo de imediato tal informação.
O recurso às novas tecnologias, suportada em conteúdos que cruzam a fiabilidade técnica e científica da informação à simplicidade vocabular dos textos, para melhor apreensão e interpretação dos mesmos vai ser ainda enriquecido com a disponibilidade de tablets (a preço simbólico), como complemento informativo, colocando também à disposição de todos os que tenham a respetiva aplicação no seu smartphone, o uso de códigos de barras bidimensionais, QR Code.
 
III
Ainda e sempre, os números.
 
Dos valores quantitativos, já aqui demos expressão sumária, na publicação do comentário “O MGV em números – 2014”, abaixo publicado. Mas convém ilustrar um pouco mais esses números, agora que estamos detentores da prestação geral dos Museus e Palácios da Direção Geral do Património Cultural, e que se pode analisar pela leitura da Nota à Imprensa, disponível em http://www.patrimoniocultural.pt/pt/imprensa/notas-de-imprensa/. Bastará, para o efeito, fazer o dowload do texto “Direção-Geral do Património Cultural ultrapassa os 3 milhões e meio de visitantes em 2014”, ali disponibilizado.
Para o Museu Grão Vasco, importa sublinhar que fomos, uma vez mais, o sexto museu que obteve mais visitantes durante o ano, depois dos quatro grandes museus nacionais (Arte Antiga, Coches, Azulejo e Arqueologia, todos localizados em Lisboa) e do singular e único Museu Monográfico de Conímbriga (com a especificidade tipológica que o distingue dos demais). Mas, se em valores absolutos nos situamos neste honroso lugar, em valores relativos e percentuais, podemos constatar que as nossas prestações são ainda mais felizes e conseguidas – fomos o quinto museu que mais subiu em número de visitantes, com mais 11.312, (depois de Arte Antiga, com mais 82.947; Arqueologia, com mais 22.927; Coches, com mais 17.799; e Azulejo, com mais 13.876 visitantes). Percentualmente, fomos o quarto museu que mais cresceu, com 16% (depois de Arte Antiga, 60%, Arqueologia, 29%, e Arte Popular, 24%).

Não menos importante foi o facto de termos registado um aumento de 22 % nas receitas de bilheteira e um aumento considerável de 46 % nas receitas da loja do museu. Esta constatação significa, portanto, que o aumento de visitantes foi mais consistente nas entradas pagas, do que nas entradas gratuitas, e que as políticas que têm vindo a ser definidas para as lojas dos museus, tanto local como nacional, têm dado bons resultados.
 
No cômputo geral, diríamos que nos colocamos mais de cinco vezes acima do crescimento médio dos Museus e Palácios (3% da média nacional, contra 16% do MGV), o que faz do Museu Grão Vasco um contribuinte líquido, francamente positivo, desse crescimento médio, e colocando Viseu no segundo lugar das cidades cujos museus registam os maiores volumes de visitantes, logo a seguir à capital. Esta constatação só nos pode e deve, a todos os viseenses, constituir motivo de orgulho e satisfação, para além do acréscimo de responsabilidade que inevitavelmente recai sobre nós, para o futuro.
 
IV
2015, o ano dos museus para uma sociedade sustentável.
 
Sendo esta a temática para o Dia Internacional dos Museus para 2015, definida pelo ICOM – Conselho Internacional dos Museus, preparámos um conjunto de iniciativas a decorrer na semana correspondente, incluindo a Noite e o Dia dos Museus, no conjunto da programação geral que temos já definida para este ano. Pensamos que será um ano de grandes acontecimentos para esta instituição museológica, estando agendada para breve uma conferência de imprensa, onde daremos conta dos projetos mais significativos que iremos realizar. Manteremos a linha programática definida no ano passado, com validade até 2016, por termos a perceção nítida das mais-valias que estamos a criar e desenvolver, no relacionamento cúmplice estabelecido com a sociedade viseense.
Muito obrigado.

Agostinho Ribeiro
 
* - Publicado na página facebook do Museu Grão Vasco, com o título "A Palavra ao Diretor | 04".

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Município de Lamego – a derrocada final!



Tendo chegado ao meu conhecimento que o Senhor Vice Presidente da Câmara Municipal de Lamego, o meu prezado amigo Eng.º José Pereira, pediu a suspensão do mandato para que foi eleito nas últimas eleições autárquicas do Concelho de Lamego, ocorre-me dizer o seguinte:

1º – Confesso que estranhei muitíssimo mais o facto do Eng.º José Pereira ter anuído à sua integração numa lista liderada pelo atual Presidente da Câmara, do que estranho agora a sua saída, ainda que provisória, do palco suicidário que se chama, ironicamente, “Viver Lamego com alma e coração”;

2º – Como eu só me posso, e devo, apresentar a mim mesmo em qualquer comparativo que possa fazer, no que respeita ao exercício de cargos políticos, acho que o Eng.º José Pereira fez mal em suspender o mandato – deveria manter-se em funções e pugnar, por dentro, a favor dos princípios e valores que eu sei que defende e pratica. Respeito a sua legítima decisão, mas discordo dela;

3º – Seja qual for a razão “oficial” que possa apresentar para justificar tal suspensão, todos sabemos já qual é ela. Espero e desejo que o Eng.º José Pereira seja consentâneo com a sua postura pública, e com a ideia de homem impoluto que dele todos fazemos;

4º - O Município de Lamego, a cidade e o concelho, degrada-se dia a dia, não só na materialidade das obras megalómanas que não servem para nada, e muito menos servem os interesses legítimos dos lamecenses, mas também e sobretudo, na moralidade (ou falta dela) dos atos e procedimentos que nos arrastam a todos para a miséria das dívidas e para as dúvidas da legalidade em tantos dos mesmos;

5º - Que os lamecenses de bem, independentemente das suas convicções político partidárias, se não fiquem pelo silêncio tacanho perante tamanho grito inconsolado, que a ninguém que tenha um mínimo de sentido e noção do “bem público” pode deixar de ser ouvido, e a todos deve obrigar a percebê-lo nas suas mais profundas motivações.

O “fim de festa”, quando a festa esteve repleta de excessos e de abusos, só pode ser o que sempre foi – amargo e doloroso!

Da minha parte, tenho a consciência tranquila – alertei, antes, para os perigos que iríamos correr; chamei a atenção, durante, para as asneiras que se estavam a cometer; continuo, agora, no lugar que os lamecenses entenderam que deveria ser o meu, para ajudar no que puder a resolver os problemas que outros criaram à nossa terra.

Exorto o Eng.º José Pereira, e todos os que, como ele, se aperceberam já do logro em que todos caímos, a estar presente na procura das soluções necessárias, e a lutar por elas, porque sobre os desmandos cometidos, já não há nada a fazer…!


Agostinho Ribeiro

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Museu Grão Vasco, a partilhar é que a gente se entende. *



1 - A partilhar é que a gente se entende.

Passados que foram nove meses de 2014, e faltando apenas o último trimestre para o completar, pensamos ser este o momento certo para partilhar com todos os nossos amigos uma breve reflexão em torno das atividades desenvolvidas pelo MGV, pela relevância de algumas ações por nós desenvolvidas durante estes últimos meses, tanto autonomamente como em parceira com outras entidades, e pela importância de tudo quanto estamos a planear para o futuro próximo.
A tarefa não é fácil, tantas e tão diversas foram as atividades em que o Museu esteve envolvido, tornando-se difícil nomeá-las a todas, na tentativa de as tipificar segundo algum critério mais ou menos consistente que não seja o da nossa abertura ao exterior. Abertura que é por nós assumida, conscientemente, como estratégica para captação de parceiros e amigos (instituições e pessoas) que nos ajudem à prossecução dos nossos próprios fins missionários, do mesmo modo que agora lhes vamos criando todas as condições de realização dos seus projetos, quando para isso somos convidados. A razão mais invocada para justificar a escolha do nosso museu, fundamenta-se no facto de serem os nossos espaços os mais adequados e apelativos às realizações que pretendem concretizar, sob a égide institucional do Museu Grão Vasco, que assim empresta o seu prestígio de museu de referência para qualificar ainda mais tais ações de serviço público cultural.
Quem nos tem vindo a seguir aqui <https://www.facebook.com/pages/Museu-Gr%C3%A3o-Vasco/577283282362259?ref=hl>, na nossa página oficial do facebook, certamente já se deu conta da enorme quantidade de parcerias que assumimos ao longo destes primeiros seis meses do ano. Muito por força de termos fechado protocolos de colaboração com cerca de 20 entidades públicas e privadas viseenses, aquando das comemorações do Dia Internacional dos Museus, a 18 de maio, e também porque temos ainda em carteira quase outras tantas entidades, pensando assinar os respetivos protocolos muito em breve. Dificilmente se encontrará melhor adequação do ato de assinatura de protocolos ao lema de 2014 do Dia Internacional dos Museus: “Museus, as coleções criam conexões”. Isto porque o ato de assinatura não constituiu uma mera formalidade sem conteúdo, mas antes serviu para aprofundar e estatuir as relações institucionais que já vinham a ser desenvolvidas entre todos e o museu, em prova inequívoca da importância que a sociedade viseense reconhece ao seu museu e da vitalidade que este tem demonstrado possuir na captação de um número cada vez maior de amigos e parceiros para o futuro.

2 – Nem só de estatísticas se vive.

Um dos mais graves equívocos que poderemos estar a viver atualmente prende-se com a perceção, redutora mas muito generalizada, de que apenas contam os “números” que as estatísticas nos vão fornecendo, sem cuidar devidamente dos valores qualitativos que deveriam estar sempre, e em todas as circunstâncias, em primeiro lugar na linha das nossas preocupações gestionárias. Uma iniciativa de alta qualidade jamais será inferior a dez de qualidade duvidosa, residindo a essência da questão em sabermos como é que a “qualidade” de uma qualquer iniciativa é medida. Quais são os padrões avaliativos que estão na base das nossas medições; que métodos adotamos para o fazermos sem correr o risco de sermos injustos na apreciação feita; que avaliações fazemos, cruzando as nossas apreciações com as apreciações dos outros, os diretos envolvidos e os diretos beneficiários…?
A qualidade dos eventos em que estivemos particularmente envolvidos, nas áreas da nossa atuação mais visíveis ao exterior, como sejam as exposições temporárias, os congressos, concertos, instalações, lançamento de livros, performances, atividades pedagógicas, visitas guiadas ao circuito permanente e temporário, permite-nos admitir o conforto do reconhecimento generalizado, por parte dos nossos parceiros e da opinião pública em geral, o que muito nos satisfaz. Mas o museu não se esgota no conjunto das ações que promove (ou colabora) diretamente para o exterior. Os estágios pedagógicos, o trabalho de investigação científica, o permanente esforço técnico de inventariação do acervo e das espécies bibliográficas e documentais, a sempre presente preocupação na monitorização e controle ambiental dos espaços museológicos, o apoio humano, técnico e científico, prestado a outras instituições e entidades públicas, são vertentes da nossa atuação menos percetíveis ao cidadão comum, mas tão ou mais importantes para o cumprimento integral das nossas obrigações fundamentais de preservação do património que está sob a nossa guarda.
Basta percorrer esta nossa página do facebook, onde vamos dando conta das nossas diversas ações e colaborações, para ficarmos sabedores da enorme quantidade e multiplicidade dos projetos realizados, aferindo ainda da grande recetividade que temos vindo a beneficiar por parte de todos os que nos têm brindado com a presença em tantos e tão diversos momentos da nossa vida institucional.
E se é verdade que nem só de estatísticas vivemos, não podemos deixar de sublinhar que o Museu Grão Vasco foi, no comparativo entre o primeiro semestre deste ano e do ano transato, (no universo dos Museus da Direção Geral do Património Cultural), o terceiro museu com maior aumento percentual do número de visitantes, e o segundo museu com maior aumento absoluto de visitantes. Esta realidade estatística dá-nos bem conta das boas prestações que estamos a ter, para benefício de todos, situação que só nos pode orgulhar.

3 – O desígnio da designação “Nacional”.

E é também por estas razões sumariamente apresentadas, que entendemos ter chegado a hora de requerer superiormente a designação “Nacional” para o nosso museu, tendo em conta a boa recetividade prévia que, oportunamente, percebemos junto da tutela, que o mesmo é dizer, junto do Senhor Secretário de Estado da Cultura e da Direção Geral do Património Cultural.
As razões históricas, artísticas, técnicas, científicas, territoriais e até mesmo estatísticas, justificam plenamente a pretensão, que não pode ser jamais entendida como uma veleidade sem fundamento, um capricho momentâneo ou uma leviandade imprudente. Pelo contrário, podemos asseverar que em todos os itens em que se pode basear a justificação e fundamento do estatuto de museu nacional, o nosso Museu Grão Vasco cumpre com distinção, permitindo-nos assim a clareza concetual de considerarmos injusta a ausência da designação que agora se pretende obter.
Sem querermos entrar pela via de uma linguagem mais tecnicista e elaborada, que não é a função deste apontamento, sempre diremos, e deixamos aqui nota para memória futura, que o Museu Grão Vasco é uma instituição de cultura (quase) secular; dotada de um acervo único no panorama artístico nacional; usando o nome de um pintor que é único e incontornável para a compreensão do pré-renascimento e renascimento em Portugal; e que foi o criador (individualmente considerado), do maior número de obras de arte classificados como bens de interesse público, vulgarmente designados por Tesouros Nacionais; possuindo, precisamente, um número significativo destes tesouros e, por via disso, colocando a cidade de Viseu como sendo a terceira com maior número de bens assim classificados e; finalmente, colocando Viseu como a segunda cidade que mais visitantes tem no seu museu (no universo dos museus da Direção Geral do Património Cultural), logo a seguir à capital!
Parece, portanto, muito pouco provável que exista, e possa ser esgrimido, algum argumento que contrarie a justiça da designação de Museu Nacional, pelo que acalentamos a indisfarçável esperança de o sermos brevemente.
Obrigado

Agostinho Ribeiro

* Texto retirado da página facebook do Museu Grão Vasco, intitulado A Palavra ao Diretor | 03.

domingo, 14 de setembro de 2014

Museu Grão Vasco, fonte inspiradora *



Do motivo inspirador.

VISIBILA é um projeto criativo que resulta da interação estabelecida entre a artista plástica Ema M. e algumas obras do Museu Grão Vasco que, pela sua própria natureza ou por razões exógenas à sua valia, menos visibilidade possuem no discurso expositivo do museu, habitando, por agora, as suas reservas. Mas não são obras indiferenciadas ou atípicas. Tão pouco são obras sem merecimento para serem expostas em permanência. Apenas se não enquadram totalmente no discurso expositivo, de essência museológica, assumido pela instituição ou, por razões ainda mais prosaicas, por não estarem nas devidas condições de apresentação ao público, pelo menos em quantidade suficiente que justifique uma alteração substantiva ao referido discurso.
Mas o elemento diferenciador, e certamente o mais decisivo, dos modelos inspiradores da artista é, sem dúvida, o da sua específica tipologia - o retrato. A artista parte de alguns retratos de personagens mais ou menos conhecidos, existentes no museu, e em particular dos retratos de D. João VI e de D. Carlota Joaquina de Bourbon, ambos de autores desconhecidos, para construir um notável conjunto pictórico que é, ao mesmo tempo, memorial e arte, história e lenda, materialidade e imaterialidade, como se de uma narrativa real e fantasiosa, a um tempo, se tratasse. E trata.

Da obra realizada.

E assim chegamos ao conjunto harmonioso que dá corpo à presente exposição – setenta e sete obras notáveis que, num primeiro relance, nos levaria a considerar como sendo os retratos de todos os reis e rainhas de Portugal, que são. Mas não só. Porque são mais que isso e, sobretudo, são criações diversas da tipologia comummente adotada para as classificar, no nosso sempre tão estranho, quanto impulsivo, afã de tentar meter todas as coisas nas caixas certas que se encontram depositadas no lado mais lógico e racional do nosso pensamento. Mas é compreensível que assim seja, porque faz parte da nossa natureza fazê-lo, na tentativa permanente, e quantas vezes inconsciente, de sobrepor alguma ordem e harmonia ao caos provocado pela infinidade de sensações e perceções que o nosso intelecto vai absorvendo ao longo das horas, dos dias, dos anos de uma vida…
Retratos que não são retratos, já que são rostos propositadamente fantasmais, aqueles que se nos apresentam pela frente e, no entanto, encontramos neles os traços identitários da personagem representada, não suscitando qualquer dúvida sobre a identidade individual de cada rei ou rainha, numa singularidade escrupulosamente demarcada, mas que só possui a plena razão da sua existência no contexto global do coletivo simbolizado. Vale por si, porque é retrato, mas só se explica plenamente, porque é obra de arte integrante de um conjunto criativo e original que ultrapassa decisivamente as fronteiras das mais arcaicas definições concetuais.
Esta irreverente forma de ser uma coisa e, depois, ser ainda mais qualquer coisa que essa coisa que se é, procurando ser múltiplo no potencial discurso interpretativo, faz-nos pensar nos motivos, ou melhor, nos mecanismos intelectuais que estiveram na base da construção deste projeto artístico. A marca impositiva é a da dicotomia, no sentido da lógica, enquanto modelo de abrangência agregadora de duas partes concorrentes para a unidade, mais que no sentido da oposição, que não existe, nessas duplicidades propositadamente construídas, e muito bem, pela artista.
É que, curiosamente, Ema M. trata sempre o simbólico na base das cumplicidades dicotómicas que poderíamos avocar à exaustão, ficando-nos aqui pela mais evidente: são retratos reais, da realeza portuguesa, onde precisamente todas as rainhas se encontram também figuradas - reis e rainhas, masculino e feminino, não em oposição mas em complementaridade natural, o que dá uma consistência inaudita ao conjunto realizado.

Da museologia à museografia.

Do ponto de vista museológico, a particularidade deste projeto, ainda na linha da dicotomia congregadora (e não opositora), reside no facto de o Museu Grão Vasco poder apresentar ao público uma obra independente, original e única, mas feita a partir da feliz inspiração da autora, Ema M., em obras de arte do próprio museu. Algumas delas, aliás, patentes na própria exposição. O Museu assume-se aqui como fazendo parte integrante e indissociável do próprio ato criativo, por intermédio de um prévio estudo e apreciação de Ema M. que, confrontada com as diversas fontes artísticas inspiradoras, se sentiu impelida à materialização dos seus impulsos criativos. Como só os artistas sabem e podem fazer…
Mas ao optar pelos retratos (que já sabemos que o não são apenas), de todos os reis e rainhas de Portugal, e da forma como o fez, a artista introduziu algumas mais-valias museológicas que não podemos deixar de referir aqui: desde logo o valor pedagógico da coleção exposta, ao dar visibilidade a aspetos muito concretos da nossa História, apresentando pequenos detalhes que escapam ao conhecimento atual de muitos visitantes. Referimo-nos, em concreto, à identificação das personagens em causa, em forma criativa e simbólica, certamente, mas ainda assim complementada com dados concretos que ajudam à perceção do todo – os anos de cada reinado; os cognomes dos reis; as respetivas consortes; a sucessão cronológica das dinastias, matizadas em diversas colorações; tudo conferindo uma linearidade natural ao próprio discurso expositivo.
Também por isto, a museografia desta exposição é extremamente simples, tão simples quanto original e apelativa, uma vez que as legendas substituem com vantagem as tabelas informativas e o percurso da visita pode ser feito em ambos os sentidos que, espacialmente, delimitam o campo expositivo. Depende apenas do nosso particular interesse na abordagem cronológica do tema, iniciando a visita pelo Condado Portucalense, nas figuras tutelares de D. Henrique e de D. Teresa de Leão e Castela ou, ao invés, pela Quarta Dinastia, apreciando os retratos de D. Manuel II e de D. Augusta Vitória de Hohenzollern-Sigmaringen.
A escolha é nossa.
O Museu Grão Vasco tem todo o gosto em apresentar ao público esta exposição de Ema M., VISIBILIA, à qual está indissoluvelmente ligado por ter sido a fonte inspiradora de tão impressivo, belo e original trabalho criativo, e por intermédio da qual também pretende dar maior visibilidade às suas coleções.
Agostinho Ribeiro
Diretor do Museu Grão Vasco
14 de setembro de 2014.


* In Catálogo da exposição “Visibilia, de Ema M”, Museu Grão Vasco, Viseu, 2014.

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Aquilino Ribeiro e o Museu Grão Vasco *




De Aquilino Ribeiro sei o que a maior parte dos portugueses, de uma maneira geral, sabem. Menos do que deveria, portanto. E tanto de Aquilino Ribeiro como de todos os outros escritores portugueses, clássicos ou não, integrados já no imaginário literário nacional, ou ainda à espera de um reconhecimento mais consistente, confesso as minhas limitações e penitencio-me por elas.
Dito isto, sinto-me mais tranquilo em escrever algumas generalidades sobre um texto de uma das personalidades que mais me marcou no tempo fabular em que eu consumia livros até à exaustão, como agora o faço no consumo desregrado da informação rápida, fácil e acessível (ainda que por vezes pouco fiável), por via da internet.

Os tempos mudaram, não haja dúvida nenhuma sobre isso, e isso nem sequer é dramático, como muitos pensam ser. Mas há coisas que convinha preservarmos, como outras há que mesmo sem disso nos darmos conta já existiam no tempo dos que hoje achamos velhos, como se a verdadeira culpa de o sermos, ou de os outros assim considerarmos, fosse do tempo, e não de nós. Não sei porquê, mas dou comigo a pensar bastas vezes sobre quem será mais velho: se um jovem que não faz uma pálida ideia de quem foi Aquilino, ou Torga, ou Camilo, ou Eça, ou Camões, ou Pessoa…, ou um qualquer “velho”, como eu, na dificuldade tacanha que tenho em enfrentar e dominar um smartphone que insiste em ser tão meu adversário no uso que dele teimo em pretender dar; ou como aliado servil doutrem, odioso para mim (roído de inveja), nos dedos desses jovens que nem para ele precisam de olhar, quando o manuseiam com o à vontade da escrita fácil e abreviada dos “kapas”. Mas é um pensamento mentiroso, e até mesmo intelectualmente desonesto da minha parte, mea-culpa, porque não me sinto velho, embora pressinta que muitos jovens me olham como se o fosse, e eu, sorrindo interiormente, percebendo perfeitamente porque assim me olham, já que tenho memória, e ainda me lembro bem de como olhava eu, na minha infinita impreparação para a vida, os que então não andariam longe da idade que hoje me traz vivo.

Adiante, que de lamúrias não se faz história, e muito menos se faz conhecimento, como naquele dia em que uma das senhoras conservadoras do nosso museu, a Dr.ª Graça Marcelino, responsável pela biblioteca e arquivo, me fez chegar gentilmente às mãos, ufana, uma cópia de um escrito de Aquilino Ribeiro, no velho Almanaque Bertrand de 1937, a propósito, precisamente, do Museu Grão Vasco. Assim mesmo, sem outra qualquer denominação de Museu, regional que fosse pela construção preambular do diploma legal que o fundou, e que por essa altura fazia a designação oficial do Museu; nem tão pouco sequer com a preposição “de”, que perdurou quase até à atualidade na legenda titular que o identificava. Não por mero acaso, certamente, mas propositadamente, Aquilino Ribeiro não esteve com meias medidas, como tantas outras vezes também não esteve, e escarrapachou o título que lhe servia na perfeição à intenção do escrito, simples e direto – O Museu Grão Vasco!

O homem era mesmo levado do tal que emprestou o nome à terra onde nasceu, e percebe-se o desígnio das tergiversações iniciais, como que a preparar os incautos leitores para a visão da ferida que ele haveria de tocar ao fim. Mas lá iremos quando a linha de pensamento aportar no que me traz à pretensão judiciosa destas linhas… A verdade é que andava eu embrenhado nuns arremedos de ideias a propósito do encontro sobre o centro histórico de Viseu, na insana preocupação de pretender dizer em escassíssimos minutos o que um qualquer ser minimamente consciente sabe não poder fazer devidamente numa comunicação séria, estruturada, com princípio, meio e fim, quando a senhora conservadora, salvífica, me brinda com aquele delicioso texto, tão aquiliano quanto Aquilino sabia ser.

Salvífica, porque me permitiu usar um poderosíssimo argumento a favor do que verdadeiramente me motivava para aquela breve intervenção, já que poderia partilhar com todos uma pretensão que nem sequer era nova no desejo de a concretizar – a ideia de que o Museu Grão Vasco era tão importante, enquanto instituição museológica, como excelente na valia do seu acervo, que não o designar com o título “nacional” era, no mínimo, um deselegante desrespeito à extraordinária qualidade da instituição.

Aquilino sabia do que escrevia e, além do mais, sabia perfeitamente como alcançar o objetivo da sua escrita, tendo em atenção as circunstâncias do tema, do tempo e até mesmo do lugar. O texto é singular, na medida em que parte de uma consideração geral a propósito da visita de Raczynski a Viseu, em tom muito próximo do coloquial, para de seguida se centrar no Museu Grão Vasco e no que, de facto, o levou à sua escrita. A propósito do devaneio “raczynskiano” pelas terras beirãs, tece então sentenciosas considerações de uma não disfarçada incomodidade pelo que ainda não estava resolvido no “casco” antigo da cidade. E passa, de seguida, à fundação do Museu. Tudo isto sem deixar de enquadrar o fenómeno, de inspiração republicana, “no movimento que teve em José de Figueiredo um dos primeiros impulsores”, a que acrescentou, sem pestanejar, que tal movimento “consistia em criar em Portugal o gosto da arte e cada cidade ir arrecadando convenientemente o que, no seu âmbito, se recomendava pela beleza, carácter, cunho histórico” [1].

Já, por várias vezes e em diversos textos meus, enfatizei estes princípios fundamentais de base republicana, que levaram à edificação de alguns museus espalhados pelo todo do território nacional [2]. A Primeira República foi responsável pela instituição de 13 museus, entre 1912 e 1924, o que nos dá bem conta da preocupação e do afã em construir o que agora designamos, pomposamente e bem, uma rede de museus, cuja missão era a de salvaguardar e valorizar o que de mais precioso existia em Portugal.

Mas temo que haja por cá, precisamente por Portugal, muita boa gente que, propositadamente ou não, pretenda continuar a confundir a constituição de uma rede de museus harmoniosamente distribuídos pelo todo do território nacional, para elevar a cultura nacional por via da “educação do povo” e da salvaguarda e valorização do património artístico português (os tais princípios muito genéricos, velhinhos, dos republicanos de boa cepa), com a construção de museus regionais no sentido restritivo do termo, que o mesmo é dizer, museus que representam uma parcela constrita do território, cuja valia do acervo não alcança o patamar da importância e visibilidade nacionais e, como tal, apenas se deve confinar ao local ou, quando muito, à região onde está instalado… Importantes, sem dúvida alguma, mas outros que não estes que estiveram na base da construção da nossa história e tessitura museológicas. E, por via desta ínvia pretensão, abdicarem pura e simplesmente das suas obrigações constitucionais, transferindo as tutelas destas instituições para setores da administração pública mais consentâneas com a natureza “regional” ou “local” destes museus. A confusão teórica é consciente e propositada, porque serve a intenção das desqualificações orgânicas e funcionais, a pretexto de um argumentário baseado em dados quantitativos indevidamente analisados e incorrectamente apresentados à opinião pública nacional.

É curioso constatar então, que afinal nem o problema é de hoje, nem as soluções são tão inovadoras como nos querem alguns fazer crer… Aquilino Ribeiro, em 1937, apercebeu-se muito bem desse logro em que nos quiseram fazer cair, porque ao escrever este aparentemente inofensivo texto, nada mais estava a fazer do que a criticar asperamente o elitismo despropositado, muito típico do complexo provinciano de que a capital nos dá, amiúde, sinais de possuir (e exercitar). Para além de outras razões de natureza ideológica, que não temos espaço, agora, para tratar, e que se prendem com a postura intelectual e política de alguns membros do 7º Governo da ditadura, nomeadamente de Gustavo Cordeiro Ramos, Ministro da Instrução Pública ao tempo da produção do documento legislativo que esteve, seguramente, na origem do texto que Aquilino Ribeiro escreveu.

Refere ele o seguinte, já em fase de arrematação: “O que é o Museu Grão Vasco? O Museu Grão Vasco não é Viseu; não é Beira. É Portugal. Mais que Portugal é o mundo, pois que a arte tem feição ecuménica. Regional é o apenas no rótulo que oficialmente lhe deram. De facto, museu regional implica arte regional, arte particular, sui generis. Em país uno, indiviso, nada de nada compósito como o nosso, poderá florir esta planta? Ainda que se confinasse no papel de repositório etnográfico, à parte a explicação que lhe poderia trazer a geografia, seria coisa impossível.”[3] O que pode parecer, à primeira vista, um despropósito de consideração, mesmo porque já se vivia num tempo em que ninguém teria coragem de por em causa a valia do património artístico ínsito ao Museu Grão Vasco, é facilmente explicado à luz do diploma legal então em vigor, e que tinha estruturado os museus portugueses em três grupos – nacionais, regionais e, simplesmente, “museus, museus municipais, tesouros de arte sacra e outras mais colecções oferecendo valor artístico, histórico ou arqueológico.” [4] É claro que o Museu Grão Vasco estava incluído no segundo grupo, e era essa precisa constatação que motivou, e explica, o conteúdo do texto agora em evidência.

Era, certamente, contra esta organização tipológica desprovida de sentido (técnico, científico e até mesmo ideológico) que Aquilino afinou o intelecto e, no uso seguro do seu bisturi, delimitou o campo da intervenção cirúrgica para conter a doença que propagaram a estes museus, pela introdução de níveis diferenciadores onde havia semelhanças, pela marcação de alteridades onde havia similitudes, fazendo então, nos idos dos anos trinta do século passado, o que agora se está a tentar fazer de novo… e agora, de forma ainda mais imprudente, não perscrutando o pensamento dos mais insignes museólogos portugueses, perdidos que andamos na inexistência de outros “Aquilinos” que, no tempo certo, nos soubessem usar o peso da sua personalidade e o poder da palavra que produzem, para defender a razoabilidade e a racionalidade na alteração ao modelo vigente, que se vê cada vez mais próximo dos idos de 1937, com a agravante de as diferenças serem ainda mais gravosas do que então…

Infelizmente, Aquilino Ribeiro já não pôde observar a primeira grande alteração conceptual que se produziu na classificação dos nossos museus, depois do célebre decreto que invetivou. Isto porque foi apenas dois anos após a sua morte que, por força da publicação do importante Regulamento Geral dos Museus de Arte, História e Arqueologia, em 1965 [5] (resultado seguro dos inestimáveis contributos de João Couto para a causa da museologia nacional), se iniciaram profundas alterações que haveriam de construir um corpo teórico consistente, e uma práxis consentânea (ainda que com muitas lacunas, erros pontuais, avanços e recuos) até 2011, finalmente interrompido com as últimas alterações legislativas do sector, em 2012, que, como se pode facilmente demonstrar, promovem o retorno (e a regressão) ao modelo criticado por Aquilino Ribeiro.

“Percorrer as salas do Museu Grão Vasco, tão inteligentemente alfaiadas (…) é sentir-se, diríamos, em boa e afamada galeria europeia. Depois das Janelas Verdes é do melhor que se pode apontar a dedo.”[6]

Pelos vistos, defendemos em 2014 exatamente o mesmo que Aquilino Ribeiro já defendia em 1937, como se o tempo, afinal, não tivesse tido tempo de mudar as velhas ideias de uma forma tão consistente e estruturante, que as entendêssemos completamente sedimentadas no coletivo das elites intelectuais portuguesas e, por via disso, fossem essas mesmas velhas ideias coisas do passado, mortas e enterradas, apenas recordadas por nós como interessante tema de discurso e abordagem historicistas, e não questões da contemporaneidade que nos obrigam a tentar perceber o que correu mal, nos últimos 49 anos desta nossa existência museológica, em Portugal.
Ou não (não correu mal), e apenas estamos a manusear agilmente o telefone que se diz ser inteligente, pensando nós que isso nos basta para sermos vistos como génios criativos e inovadores, prontos para as grandes mudanças de paradigma que a sociedade moderna nos exige promover, apontando caminhos que, afinal, mais não são que trilhos antigos há muito abandonados… Basta ler algumas coisas de Aquilino Ribeiro, e de outros como ele, para ficarmos com essa certeza.

Agostinho Ribeiro
Viseu, 31 de Julho de 2014.

* Publicado nos Cadernos Aquilinianos, nº 22, Série 3, CEAR (Centro de Estudos Aquilino Ribeiro), Pgs. 83-88, 2014.



[1] RIBEIRO, Aquilino – O Museu Grão Vasco, in Almanaque Bertrand, 1937, pg. 78.
[2] RIBEIRO, Agostinho – Um Museu para a Região do Douro, fundamentos e proposta de organização, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2002, p. 34 e segs.
[3] RIBEIRO, Aquilino – ob. cit., pg. 79.
[4] Artº 49º, c) do Decreto nº 20:985, de 7 de Março de 1932.
[5] Decreto nº 46 758, de 18 de Dezembro de 1965.
[6] RIBEIRO, Aquilino – Ibidem.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Das vantagens do compadrio!

Breve elucidário (em três imagens), de uma das vantagens em se ter um compadre mercenário a dirigir um serviço público, ali colocado por designação pessoal e arbitrária, claro…

I



II



III







Este breve elucidário destina-se exclusivamente ao concelho de Lamego, uma vez que não tenho conhecimento de em mais lado algum tal coisa acontecer!

Agostinho Ribeiro